__ Por que você veio?
__ Eu vim trazer umas flores, este lugar precisa de cor!
__ Ironia?
__ De modo algum! Apenas uma cortesia... um tanto clichê, mas é muito difícil saber o que fazer pra agradar alguém como você.
__ Continue.
__ Ora, você não me torture.
__ Ah, eu te torturo? Faltou-te coragem pra dizer: moribunda! Você fraqueja, erra e omite expressões por mera piedade; eu tou morrendo e mesmo assim te torturo! A lógica da vida anda atrapalhada.
__ Me desculpe, foi uma forma errada de entrar, escolhi mal a expressão.
__ Muito me admira, que tipo de escritor és, escolhendo expressões erradas e tremendo das pernas na hora da sentença? Francamente, “mea culpa” não cabe aos bons neste ofício.
__ Talvez você preferisse que eu entrasse e dissesse: “boa morte”, simples como dizer “bom dia”...
__ Uau, tocou no brio! Agora gostei, escritor tem que ter personalidade, mesmo quando erra.
__ Eu errei?
__ Você veio, isso foi um erro fenomenal.
__ Mas a minha profissão não me impede de ter compaixão.
__ Cínico!
__ A sua agressividade é absolutamente compreensível.
__ E ainda mau-caráter, como se não bastasse! Mas não precisa se explicar, eu sei o porquê da sua vinda: vaidade, vã, tola e vil.
__ Ou pena, talvez!
__ Se você é movido por excrementos de sentimentos não me teria criado como personagem. Você é sádico, me fez uma neurologista com câncer no cérebro, em fase terminal. Profissionalmente eu sou o último degrau entre o homem e Deus. E aí você veio me ver, não resistiu à grandeza do tema e se inseriu na história.
__ Não é verdade, eu vim por compaixão.
__ Jamais! Veio pelo extraordinário, pela grandeza da tragédia e para exercer o poder de Deus sobre mim, que passei a minha vida a fazer verdadeiros milagres à pessoas tecnicamente morta. Agora que agonizo só, sofrida e afundada à morte breve, você quebra o silêncio e se coloca na história que criou por pura vaidade. Mas eu não sou fácil de dobrar, diferentemente de seus outros personagens. Agora quebramos a distância entre criador e criatura.
__ É a primeira vez que me acontece!
__ Eu sou sua grande personagem, a mais bem constituída de seus fantoches. O que não significa que seja mérito seu, de jeito nenhum, do modo que nasci de suas teclas, nasceria, também, das teclas de outro autor. Você foi um acidente! É como um pai biológico que não vê sua filha crescer, apenas um espermatozóide perdido. Trago seus traços mas não temos afeto. Além do que sou muito melhor que você.
__ Talvez a mais arrogante das minhas criações...
__ Arrogantes, débeis, idiotas, bacanas, mendigos e bandidos, sua fauna é exótica; talvez você atormentasse menos o mundo se procurasse uma psiquiatra.
__ Já pensei nisso, mas não estaria aqui neste momento se o tivesse feito.
__ Olhe pela janela.
__ O que há?
__ Vê aquele senhor moreno?
__ Sim, o que há com ele?
__ Nada. Ele entra no trabalho às 8h, 9H45 ele para e fuma um cigarro, até o meio-dia varre a alameda e depois das 14h molha as plantas, conversa com algumas auxiliares de enfermagem até ás 18h, quando vai embora. Todo dia é o mesmo ritual.
__ Mas ele não é minha criação!
__ Eu sei, eu sei... me ajude um pouco a elevar a cama. Quer um cigarro?
__ Eu aceito, mas você não deveria fuma no seu estado.
__ Pra quem vai morrer que diferença faz um cigarro a mais ou você é sádico também? Deve ser, mas voltemos ao moreno...
__ E então?
__ Ele não estudou, deve ser casado há muitos anos haja vista a maneira erótica com que ele aborda as empregadas, que sinceramente se deixam levar por qualquer troço! Deve ter uma vida fodida e morna. E algum autor criou esse personagem medíocre pra ter o mesmo fim que o meu. Com um pouco mais de sorte ele sofrerá menos que eu, talvez ele caia pra trás num enfarto fulminante. Mas o que brilha é inutilidade de criar pra matar. A toda sorte de gente, o mesmo fim. Fumando esse cigarro, de muito boa marca por sinal, eu posso te dizer que substâncias agem no meu corpo, que tipo e volume de hormônios me fazem estar neste estado melancólico. Posso dizer com precisão que parte do meu cérebro está reagindo às minhas palavras. Falo cinco idiomas perfeitamente, li todos os clássicos literários e médicos. Meu artigo sobre neuropsiquiatria serve de estudo e referência acadêmica e aquele homem moreno não sabe nem pra que serve o cérebro...
__ É o destino, você foi privilegiada...
__ Privilegiada com carcinoma isomórfico tanostálico, muito obrigada! Mas não é destino, você continua sendo cínico, como sempre em tudo a sua volta. Trata-se de vontade e frustração. O autor do homem moreno é muito mais feliz e equilibrado que você, ele criou um personagem com vontade, partindo do espírito mais naïf, mais simples pra que ele evolua, para grandir. Você me criou grande, bem formada, inteligente, competente e convencida. Os modestos têm suas razões. Eu fui a Florença, estudei as relações dos Medicis e Medinas, posso dar uma aula a qualquer professo de história da arte sobre arquitetura do Palazzo Vecchio, Le Duomo e Belvedere em italiano, sem sotaque. Conheci todas as galerias de arte do leste europeu e posso, de memória, lhe recitar poemas de Rimbaud num francês impecável...
__ Eu tenho muito orgulho de você.
__ Não, você tem inveja, porque você me criou como modo de exorcizar sua frustração. Eu fui onde você sonhou, eu sou o que você deseja. É por isso que você veio, por essa razão! Com estas flores baratas, constatar estes tubos infernais que me avassalam os orifícios. Você veio me ver morrer, porque quando eu não estiver mais aqui você terá a consciência tranqüila de que o seu alter-ego morreu.
__ Você seria capaz de virar pra si esse seu bisturi afiado e se auto-dissecar?
__ Por que eu perdia meu tempo? Eu vou morrer, esqueceu? Neste instante não cabe nada, tudo que me concerne já foi. Você acredita em vida após a morte?
__ Não, lamento dizer isso a alguém na sua situação, mas...
__ Não se lamente, eu também não acredito. E em eternidade, você acredita?
__ Como assim?
__ Você é burrinho, por vezes me esqueço. Contigo tenho que ser didática. Deixe-me reformular a pergunta de forma que sua cabecinha digira...
__ Muito gentil da sua parte!
__ Gentil? Nunca fui, é solidão mesmo, você é melhor que ninguém.
__ Obrigado pela importância!
__ Você não merecia mais, não deseja que eu seja afetuosa com alguém que vai me matar?
__ Eu entendo suas razões...
__Pois bem, eu falei de eternidade como a "Divina Comédia", eternidade como “Os miseráveis”, como “Madame Bovary”, é desse tipo de eternidade a qual me refiro.
__ Sim, assim é evidente que existe, a eternidade das obras. Veja os gregos, por exemplo, são e serão vivos pra sempre.
__ Fico feliz!
__ Mas o que te deixa feliz?
__ Você é o autor mais burro que já vi...
__ Delicada!
__ Verdade! Eu vou morrer, certo?
__ Certo!
__ Mas não morri, certo? Isso me lembra quando eu tinha cinco anos e estava aprendendo a contar...
__ Não morreu, ainda.
__ Isso ainda não, mas quando você terminar esta visita eu terei que morrer por uma questão de coerência com o título do conto e com o destino nefasto que você me escolheu...
__ Hum...
__ Mas quantas pessoas lerão este texto?
__ Sei lá, ninguém ou um milhão, eu sou um autor desconhecido. Por quê?
__ Porque em cada leitor eu estarei eternamente viva, moribunda, mas te maltratando e te humilhando. Por dignidade e amor próprio você poderá me ridicularizar depois da minha rica análise. Quando eu partir, recomeçarei todo o massacre outra vez. Foi uma péssima idéia você ter entrado no conto!
__ Tou começando a concordar.
__ Claro, seria muito mais fácil você fazer seus achismos com “X” sobre uma moribunda bem formada, fazendo considerações clichês sobre aquilo que você não sabe merda nenhuma. Talvez convencesse alguma leitora e quem sabe lhe desse alguma fama pelo tema. Desgraça vende sempre, mesmo que seja mal contada.
__Ainda não vendi nada.
__ Haverá seu tempo, nós estamos num hiato histórico tão violento que até você, um escritor de bordel, vai fazer sucesso!
__ Se eu tivesse te posto no comando de um hospital, com 30 anos mais jovem, em plena beleza e independência, você seria mais amena comigo...
__ Ou mais feroz! Pense bem, se quase morta sou capaz de te jogar o reflexo que o espelho esconde, imagine em condições de guerrear? Eu te escreveria, me tornaria tua autora. Um pouco mais forte e eu te devoraria.
__Não tome como uma vingança, essa estória me ocorreu na madrugada passada...
__ Não, minha história é com “H”, lhe ocorreu desde sempre porque eu sou a realização de suas frustrações e sua vingança não é contra mim. Como um psicopata você me criou pra me matar, porque assim você pensa matar a sua patologia, e entrou numa armadilha sem tamanho, me fez eternamente agressiva e cortante. Se deixou dissecar até as vísceras e essa história reviverá cada vez que um leitor se agarrar nela.
__ Xeque-mate?
__ Quase.
__ E o que falta?
__ sabe aquele senhor moreno, do qual falamos antes?
__ Sim...
__ Ele, talvez, não maldiga seu criador, como eu faço, contudo ele jamais terá do que se fartar. Ele é conformado com sua pequeneza e nunca terá um senso crítico a ponto de desnudar seu criador, é daquela gente que vive e morre por acidente.
__ E você é de que tipo?
__ Do tipo que te odeia por princípio ético, mas que te agradecerei por toda eternidade por ter me feito melhor que você: o contrário da sua mediocridade!
__ De nada, mas não se esqueça de que se eu lhe criei em esplendor e grandeza é simplesmente porque saiu de mim. Você é fruto da minha imaginação e mesmo que seja subproduto de minha frustração, você é apenas uma criação minha, um subproduto de minhas mazelas.
__ Agora falou como escritor. Baixe à persiana, por favor. E vá a sua vida.
__ Você sabe que seu eu parar de escrever você morre!
__ Mais cedo ou mais tarde, que diferença faz? Você não tem coisa melhor a fazer?
__ Tou escrevendo um segundo romance.
__ Interessante, divirta-se com sua nova fauna. Ah, não se esqueça de avisar a enfermeira que a morfina está perdendo o efeito, que não se demore...
__ Então, Adeus...
__ E leve essas flores ridículas e pobres.
__ Obrigado.
__ Eu que agradeço!
Saí do quarto e desliguei a luz florescente que a incomodava, restaram os fortes raios do sol do verão, triste época do ano pra morrer! A enfermeira renovou a dose de morfina que a fez dormir, contendo em silêncio sua fúria de existir. Eu voltei à escrivaninha um tanto triste, mas foi inevitável: horas depois Lady Jane morreu de paralisia múltipla dos órgãos e terminei este conto só pra lhe homenagear como grande personagem, como grande mulher que só existiu na minha mente. Descanse em paz minha Lady. E o sol brilha do mesmo jeito!
Edu França 27/04/10