UMA GOTA DE SANGUE NO DOMINGO DE CARNAVAL - Contos Fora da Minha Pele

Terça-feira, Fevereiro 14, 2012


      Uma gota de sangue pinga do assoalho composto de madeira de lei, grossa, densa, de intenso um rubro negro, em ritmo lento e intermitente; num quarto desabitado, onde poucos raios do sol dissimulam o breu envolto num nevoeiro de serragem. A paz do ambiente vinha nos braços do silêncio, quebrado apenas com o tocar da gota a poça. Barulho de líquido grosso em tempo regular, preciso quanto um relógio.
         Um fecho de luz deitava-se sobre ombros largos de um jovem musculoso sentado à cadeira imperiosa. Via empalidecido o respingar das gotas chocadas; sua cabeça fazia sombra sobre sua face. Ou talvez não tivesse rosto. Tinha, é sabido, gosto de ser apenas ele, os raios solares e o sangue incessante. O pequeno córrego de sangue dirigia-se à porta fechada. Por baixo, aquilo que não era vedado pelo sangue duro, era arrombado de luz clara. O dia brilhava lá fora com calor de cozer corpos. E pouco importava ao homem que a vida insistisse , era da raça dos que preferem a escuridão e a indignidade de não ter face: imperador desconhecido do prazer sádico do sangue que escorre. Na sua majestade não exigia grosso volume ou novos pontos de sangramento. Satisfazia-se com aquele pingar lento. Não se sabia quantos corpos haviam tombado para que apreciasse seu particular espetáculo de horror, tampouco se importava com quantos mais haveriam de tombar para não cessar seu prazer; isto sim não poderia acabar!
         O cheiro nauseabundo não lhe causava efeito ou incômodo aparente, incomodava-o o barulho dos corpos, arrastados como fardos e, muito raro algum moribundo ainda gemia, mas por pouco tempo. Só o gotejar não poderia cessar, seu prazer era única lei imperiosa. Algumas aves ousaram cantar do lado de fora. Atenção! O sol brilhou mais forte, longe, muito longe uma multidão cantarolava algo incompreensível àquela distância. Não! Haveriam de morrer, gastando-se como cana para seu suco supremo em gotas de sangue. Cantar jamais! Inquietou-se à cadeira, ardeu em cólera, sua fome aumentou, queria mais corpos, mais pontos de hemorragia. Que maldito canto convertesse-se em choro de dor, em suplício de desesperado, em agonia de quase morto e humilhações de subjugados à sol do algoz. Apinhem facas, emudeçam este canto insuportável, parem essa alegria inadequada à realidade, não há lugar para contentamentos. Chamem os donos das chaves e fechem todas as portas à sublevação. Soltem os cães raivosos e joguem os cavalos sobre essa perigosa multidão de insurretos, que nasceram para morte lenta, em gotas de sangue delgadas. Que impere o medo: decapitem, torturem, amputem, mutilem. Dêem asas à imaginação da sua crueldade. Tirem a pouca comida que lhes restam, encarcerem os mais falantes, empurrem-nos às fábricas, aos teares, sucumbam o domingo. Matem de exaustão e descartem os que já não tem sangue a dar.
         O canto aumentava, a face cada hora era mais escura, seu prazer de rato ameaçado. Quem ameaçaria o aristocrata psicopata? Não gosta de gente herética, suportava os curvos e os horizontais em prazer, seu prazer; abalado por um canto triunfal. Vestia-se de limpeza, em camisa branca alvejada com os raios do sol. Ah, mesmo seu quinhão de terra de morrer havia de amanhecer, apesar de tonéis de sangue, seu pagamento mor pelo seu hedonismo particular. Raivoso, muito sangue havia de verter, mas a luta parou, o canto foi mais próximo, outros tantos engrossaram o coro, a música era audível. Lutaria ele mesmo em defesa de seu prazer, pegaria em armas, se cercaria de novos capangas, mais belicosos e mortais que nunca. Para tanto bastava levantar-se da cadeira sedentária. Não tardou: fê-lo. Com a face coberta pela escuridão vagou cego, tropeçando nas pernas. O momento de abrir a porta à vida. Mas não poderia ser vida qualquer coisa que diferisse do seu prazer. Precipitou-se à porta. O povo estava a centímetros. Eis que uma simples gota de sangue deitou-se em sua camisa branca. Desesperou-se, contra todos os riscos abriu a porta, viu milhões em festa, batucava sua alegria para seu pânico particular, da tragédia que lhe chegara: uma gota de sangue! Quis interromper a multidão em orgia, como se estivesse a beira da morte: “Uma gota de sangue me tocou, façamos uma passeata pela paz, todos de branco”, gritou majestoso, a seguir dialogou com surdos, por fim implorou aos prantos. Algum gaiato largou um sorriso insolente: “eu também sou”, afirmou em galhofa. Quem delirava, era ele ou a multidão? Ninguém dera conta que uma gota de sangue o tocara? Sem poder desolou-se a sentar e ver o povo em histeria coletiva. Calmo, pode ver que o gotejo de sangue continuava e que trazia na camisa branca, além da gota, a inscrição: “Sou Brasileiro!”. Desistiu da tirania, aderiu ao domingo de momo, afinal é carnaval, ninguém leva a mal e somos todos brasileiros: tirania, sangue e festa são nossa matéria, servos dos patriarcas da morte


Paris, 14/02/2010

EU ERA OUTRO - Contos Fora Minha Pele

Quarta-feira, Novembro 30, 2011


                Eu me acordei com o barulho de uma feira a céu aberto, aquele zum-zum-zum de gritos soltos, diálogos atropelados, conversas cruzadas, das quais eu não pesquei uma palavra, umazinha por misericórdia. Eu não entendia o idioma! Me levantei trôpego e me debrucei, estático, à janela da feira, estava num prédio de dez andares e por baixo havia senhoras de turbantes negros, senhores de sarongues paquistaneses e os árabes com suas tocas e eu só queria saber o que eu estava fazendo ali. Virei às costas e o quarto de casal não era o meu, ao contrário: móveis escuros e antigos não me encantavam, me soavam como parte de um antiquário; e eu amava a modernidade, mas algo me fez velho: uma fotografia de casamento, comigo muito moço e uma senhora bela, de aparência magrebe, lindíssima por sinal. Mas eu não sabia o que estava fazendo, ao menos eu sabia o que não estava fazendo: eu nunca casei com aquela mulher! Voltei à janela em busca de Recife, mas ao longe passava um trem azul, branco e vermelho e a estação tinha uma placa azul com o nome em branco: “Sevran”, logo abaixo assinalava a direção de Paris. Que danado tava eu fazendo no quarto de um estranho, casado com a mulher dos outros, no subúrbio de uma cidade que não era minha?

                Tudo que queria, mais que compreender o absurdo do outro, era achar meu passaporte brasileiro, o qual dizia meu nome, constava minha nacionalidade e me situaria a minha inquietação de não ser eu; revirei as gavetas em total impunidade, botei abaixo o guarda-roupa e me dei com uma identidade um tanto azulada com minha foto estampada e um nome árabe que nem de longe se parecia com o meu, lá estava Karim Abule-Hlla, nacionalizado francês em setembro de 2008, nascido na Tunísia. Ah não! Só podia ser falso, caso de polícia, eu nem sei, ao certo, onde fica a Tunísia e o meu verdadeiro nome é... é... é... Maldito branco. Esqueci meu nome, não é possível esquecer seu próprio nome. Mas eu lembro de Recife, da Av. Guararapes, da Dantas Barreto, da favela do Detran, do Varadouro, da Sé, do V8, da Ribeira, do Mercado Eufrásio Barbosa, Av Norte, do Vasco da Gama, da Igreja de Piedade, do calçadão de Boa Viagem, do Mercado de São José, do sarapatel em Camaragibe, da praia de Itapuama, de Pedra do Xareu... oxe, eu me lembro de Geraldo Freire e do Bandeira 2, é claro que qualquer policial saberá que eu não sou daqui. Entretanto, como coisa estranha, como sentimento estrangeiro, eu me lembro com perfeição e ricamente detalhado da Boulevard Saint Germain. É, de tomar Richard à Brasserie Liip e ouvir a esquerda do mundo, dos “vins rosés”  incríveis do “Le Deux Magots”, do de Flore, me lembro também, não sei como, do quatier latin, e de um belo restaurante defronte è “La Place Saint-Michel”, dos pequenos bistrôs colados à ateliers de pinturas de Monmartre, do Jazz, do Rock e do sexo à “rue de Saint-Dinis, à Chattlet, Guines Taverne, dos inferninhos no Pigalle, da boulangerie  Voltaire, no 11ème, onde comia exageradamente o “Religieuse” de café, de cafés duplos. Quando queria beber bem era em Bastille, no Havanita, onde me perdia entre mojitos, piña colada e cervejas irlandesas... sempre existirá o Club Cuba Libre, onde bebi o que há de melhor em margaritas. Almoçar era no Budha, belas saladas de Salmão defumado e tudo isto estava em mim sem ser eu.

                Como memória implantada, atravessei a porta e uma menina linda me pediu: “Papa, est-que-ce tu peux m´aider à étudier?”. Eu entendia francês sem saber como e de quem era aquela menina que me chamava de pai. Será que seu pai não ficaria ofendido se sua filha filha chamasse um estranho de pai? Eu poderia esquecer meu nome, mas uma criança não confundi seu pai! “Oui, je peux t´aider, assieds là, sil-tu-plaît ma chéri”. Eu falava francês. Como? Onde aprendi isso? Só me vinha uma tontura e tudo girava ao meu redor. Eu já me distraia explicando à garotinha a formação do passé composé do verbo être. Nada mais que colocar o verbo no passado inifinitivo precedido do verbo “avoir”, e lá ia eu dizendo e ela repetindo: j´ai été, tu as été, Il a été, nous avons été, ils ont été. Eu sabia de cor. Minha suposta filha deveria ter 8 anos, não mais. Fiquei muito acanhado de perguntar, pega muito mal pra um pai esquecer a idade de um filho.  Mal mesmo era não lembrar do filho! Eu tava puto com a irresponsabilidade dos responsáveis daquela criança, largá-la aos cuidados de um estrangeiro desconhecido. Então entrou pela porta aquela que seria sua mãe, presumi pelo grito da menina; logo eu seria o marido, no máximo em ex-companheiro, mas ela me beijou com tanto calor que, então, descobri que era marido. Não só pelo beijo mas pela forma casual  como largou minha boca no ar e se foi pra cozinha. Ninguém beija uma estranhoe vai guardar legumes como se nada fosse. Achei que fosse hora de um faca-à-face, mas na hora de lhe chamar eu não sabia seu nome e fiquei mudo, com a língua saboreando o que sobrou do beijo, com a esperança desesperada de que seu nome viesse com seu gosto. Ela havia bebido um café amargo, mas havia também o gosto recente de licor de amêndoas amargas – sim, do gosto eu lembrava bem. Por isso joguei o verde, disse o que sentia do seu beijo, minha boca falava francês, embora – continuo afirmando – não sei falar francês. Ela riu e disse que meu paladar era meu tesouro e se um dia eu ficasse rico seria por conta da minha língua. Quer dizer que sou pobre e versado em sexo oral, aos pouco eu ia me achando, segundo os outros. Não era nada mal ser esposo dela, que mulher bonita! No meu Recife a chamariam de morena clara, bronzeada, mas ela era da cor do deserto, de coxas grossas, cintura fina, seios fartos, passava dos 30 e tinha uma pele cuidada à ouro, uma voz rouca e com um francês delicado que dava prazer de ouvir, pronunciava sílaba por sílaba. “Jordana”, a menina correu a mãe, que pronunciou na verdade “Jordaná”, coisas do francês que transformam todas as palavras em oxítonas; eu estava quieto, com medo de ser descoberto porque começava a me achar bem vestido naquele terno, mulher bonita, menina inteligente, licor de amêndoas amargas e sexo oral. A menina relatou o que ensinei. Ensinei o que não sei! “Quem é a mulher mais linda do mundo?”, “Charllotte Hallal”, respondia a menina aos gostos da mãe e assim me ensianava o nome da minha esposa – que nunca foi. “Todos elogiaram o conto”, ela me disse. Que conto? “ O problema foi você trata a ´classe dominante como tiranos ridículos´, mas o editor fez o contrato de publicação sem retificar uma vírgula”. “E quem vai resolver isso?” “Ora, você, o escritor!”. Boa, eu era escritor e de esquerda anti-burguês, não tava mal. Agora eu só me perguntava como seria quando todos descobrissem que era um impostor recifense, lascado, sem eira nem beira e muito menos um escritor. “Vi um apartamento em Paris, isso tá virando uma cité”. Cité é favela, disso eu sei, conheço cité, pobreza e toda sorte de miséria. “9ème, rue de Saint-Claude...”, “Perto da ópera de Bastille!”, completei de avanço, como ato automático, como se o mapa de Paris estivesse implantado na minha cabeça. Alguém me comprou essa vida; não é um sacana, mas não é justo com essa criança amável, nem com essa mulher deliciosa que essa farsa continuasse. Eu não posso!

                A primeira coisa a fazer era abrir o jogo, dar nome aos bois e evocar Recife como centro do mundo, muito respeito pela Tunísia, mas não sei onde fica. Meti a boca ao ataque, disse que era recifense, assim como ela era parisiense. Ela tomava uma ducha completamente nua e sem o pudor de um estranho, repetiu “RECIFONSÍ” , como se pronuncia no francês e pensou que fosse um metier, um estilo literário ou mesmo uma doença tropical. “Não, é uma Nação!”. Embalou-se de gargalhada, quanto mais eu explicava mais ela ria, eu me irritei com a cena patética, fechei a cara, mas não desviei o olhar daquela bela fêmea nua. “Não precisa inventar estórias pra não irmos a Tunísia esse ano. Francamente, também já estou cheia de lá. Também não podemos ir ao Irã...”; “O que diabos vamos fazer no Irã?”, “Respeite meus pais, acho que fizeram uma má escolha, no momento errado em voltar pro Irã, mas eles me faltam muito...”, “Não falei por eles, falei por causa do regime de governo...”. Eu tava bem casado, até mentiras de dissimulação já tinha prontas; eu era casado com uma iraniana, já tinha ido a Tunísia diversas vezes em férias, o que significava que eu era bem eu! Recife lhe soou tão estranho quanto uma bicicleta para um peixe, ela reagiu como se nunca tivera ouvido falar de Recife, mas eu nunca deixaria de contar a minha esposa minhas aventuras tropicais, como andar pelo carnaval de Olinda, tomar aguardente puro em Vitória, comer acarajé apimentado na Dantas Barreto, comer feijão com charque na beira do canal da encruzilhada ou tomar batida de coco no bloco “eu acho é pouco”. Isso não se esconde nem de Jesus, quanto mais de uma mulher que mais em mais me despertava desejo! Alisei seus cabelos secos e cheirei seu pescoço perfumado, ela fechou os olhos e sorriu de leve, como se o tempo parasse pra sentir o carinho. Jordana entrou pelo banheiro, falando pelos cotovelos, peguei-a no braço e ela me melecou de batom. Eu era aquilo que me tornara. Talvez Recife e minha vida fossem apenas umas estórias inventadas, estórias que apenas esqueci de passar pro papel. A menina desabalou do banheiro como um foguete, e como toda criança, ela só queria o que se passava. Charllotte abraçou-me nua debaixo do roupão, eu senti o prazer supremo e sublime de sentir seu corpo feminino nu, sem nada interrompendo o correr das minhas mãos indecentes sobre sua pele macia. Me beijava com paixão e, não sei como, eu a amava mesmo que tenha descoberto seu nome a coisa de minutos atrás. Fizemos amor com uma intimidade que só os anos dão a um casal, o toque certo, na hora certa e uma infinidade de conjugações de fazer amor; pontualmente alinhado, nossos relógios de amar tinham sincronia. Preferia morrer a me desmascarar. Empurrou-me pra ducha como quem cuida de uma criança, dizendo estávamos atrasados. Eu já acostumava a não saber de nada, tomei meu banho às pressas, atrasado Deus sabe pra que!

                Ela danou-se com Jordana que pintou o 7  na sala, eu fui ao guarda-roupa e me agradei do que vi, o seu dono tinha o mesmo gosto que eu; ela regia o tempo como uma maestrina, mandou me despachar, escolhi uma camisa de botões, sem bolso. Havia muitas, finalmente alguém, além de mim, descobriu a inutilidade do bolso numa camisa de botões, só causa desarmonia e desequilíbrio estético. Qual serenidade podia eu aspirar? Vesti-me elegante, mas informal, como gosto! Ela arranjou a gola da camisa e me elogiou os sapatos. Havia muitos perfumes, segundo ela, escolhi seu preferido. Fiquei na sala como um imbecil, esperando ordens e com vergonha de perguntar onde iríamos, deu-me uma pasta de couro, sem alças, boas pra guardar textos e abriu a porta; claro que eu e Jordana obedecemos como cães. Já não havia feira, nem muita gente, alguns jovens negros faziam um pequeno tráfico de cannabis, ela abriu a porta de um carro. Duvido que minha esposa fosse uma ladra e me convenci de que era seu, quando ela me fuzilou: “Você já pode comprar um carro melhor!”; eu nunca tive carro! Jordana atacou o cinto com destreza, prova de que tinha hábito. “Achei”, gritou Charllotte com um brinco caído no assoalho, de fato o carro era bem conhecido da família. Caladinho, caladinho eu até parecia parte de tudo; ela meteu-se na estrada e eu não me recordava das ruas de Paris, ia vendo como novidade, se fosse em Recife, por exemplo, eu saberia ir da zona Sul à zona Norte num piscar de olhos. Mas em Paris não era mais que um turista, até que caiu da minha boca “entra em Bagnolet e vai por Rommainville até Lilas, assim evita o trânsito na porta de Montroeil”.  Sei lá como sabia disso, só sei que funcionou, um atalho e tanto, mas pra onde? Em poucos minutos estávamos numa grande Boulevard e o impulso foi o mesmo: “Vai até Nation e vira na Boulevard Voltaire até Republique e guarda o carro no estacionamento do restaurante Leon Bruxelles”! Funcionou outra vez. Descemos do carro e eu fiquei parado, “É normal, mas depois passa!”. O que é que passa? Agarrou no meu braço, eu segurei no braço de Jordana e fomos lá, onde só ela o sabia. La place de Republique não me era estranha, olhei-a como turista, eu era um turista da minha nova vida. Contornamos meia praça e entramos num hotel luxuoso e requintado, onde uma placa indicava a direção do centro de convenções; então íamos a uma palestra? Mas de quê? Espero bem que não seja de venda de colchões ortopédicos. Era uma sala confortável, de 100 lugares no máximo, quase todos ocupados, nos dirigimos à primeira fila onde só haviam 2 lugares vagos, evidente que o posto de vigilante era meu. Também estava muito nervoso pra sentar, queria que tudo começasse o quanto antes; Charllotte me puxou pela camisa e de deu um beijo delicioso, com sabor café, me desejou boa sorte e me soltou. Sensação de barco à deriva! Uma moça gentil tocou no meu braço me convidando a subir no palco, parece que o palhaço seria eu. Me deixei levar, trêmulo de medo, logo veio um técnico e colocou o microfone a minha altura, eu pedi um pouco de grappa com café; no tempo de providenciar o técnico tomou-me a pasta e a abriu, apoiada no púlpito. Fiquei ali parado sem saber se sabia ler em francês; chegaram a grappa gelada e o café expresso, degustei os dois e o amargo me pareceu agradável. Ganhei coragem e de súbito sabia que a hora do meu desmascaramento era agora! Puxei a primeira folha e comecei a lê-la em boa entonação, com pausas dramáticas e entonações teatrais, o público começava a se deixar levar pela história, uma senhora ria, e é de rir mesmo. Eu entendia o que lia e me lembrava de Recife, lia como se todos fossem capazes de me levar pra casa, como se aquela centena de pessoas fosse potente o suficiente pra me explicar, sobretudo, explicar a minha amada Charllotte que não sou árabe, muito menos tunisiano, que meu berço é a favela do Detran e que sou bicho tropical, que nasceu da mistura de preto, índio e português. Mas que ser de lá não me impede de amar de cá, onde uma família amorosa me acolhe mesmo que não me lembre dela, e que o Irã e o Brasil nem são tão longe assim; só queria dizer que te amo mesmo sem saber quem és, nem quem sou. O público que ria, se comoveu, me aplaudiu de pé e mesmo assim continuo amando perdido, entre Recife e qualquer lugar!

Edu França

08/06/10

NO DIA EM QUE MATEI LADY JANE - Contos Fora da Minha Pele

Quinta-feira, Novembro 10, 2011

__ Por que você veio?
__ Eu vim trazer umas flores, este lugar precisa de cor!
__ Ironia?
__ De modo algum! Apenas uma cortesia... um tanto clichê, mas é muito difícil saber o que fazer pra agradar alguém como você.
__ Continue.
__ Ora, você não me torture.
__ Ah, eu te torturo? Faltou-te coragem pra dizer: moribunda! Você fraqueja, erra e omite expressões por mera piedade; eu tou morrendo e mesmo assim te torturo! A lógica da vida anda atrapalhada.
__ Me desculpe, foi uma forma errada de entrar, escolhi mal a expressão.
__ Muito me admira, que tipo de escritor és, escolhendo expressões erradas e tremendo das pernas na hora da sentença? Francamente, “mea culpa” não cabe aos bons neste ofício.
__ Talvez você preferisse que eu entrasse e dissesse: “boa morte”, simples como dizer “bom dia”...
__ Uau, tocou no brio! Agora gostei, escritor tem que ter personalidade, mesmo quando erra.

__ Eu errei?
__ Você veio, isso foi um erro fenomenal.
__ Mas a minha profissão não me impede de ter compaixão.
__ Cínico!
__ A sua agressividade é absolutamente compreensível.
__ E ainda mau-caráter, como se não bastasse! Mas não precisa se explicar, eu sei o porquê da sua vinda: vaidade, vã, tola e vil.
__ Ou pena, talvez!
__ Se você é movido por excrementos de sentimentos não me teria criado como personagem. Você é sádico, me fez uma neurologista com câncer no cérebro, em fase terminal. Profissionalmente eu sou o último degrau entre o homem e Deus. E aí você veio me ver, não resistiu à grandeza do tema e se inseriu na história.
__ Não é verdade, eu vim por compaixão.
__ Jamais! Veio pelo extraordinário, pela grandeza da tragédia e para exercer o poder de Deus sobre mim, que passei a minha vida a fazer verdadeiros milagres à pessoas tecnicamente morta. Agora que agonizo só, sofrida e afundada à morte breve, você quebra o silêncio e se coloca na história que criou por pura vaidade. Mas eu não sou fácil de dobrar, diferentemente de seus outros personagens. Agora quebramos a distância entre criador e criatura.
__ É a primeira vez que me acontece!
__ Eu sou sua grande personagem, a mais bem constituída de seus fantoches. O que não significa que seja mérito seu, de jeito nenhum, do modo que nasci de suas teclas, nasceria, também, das teclas de outro autor. Você foi um acidente! É como um pai biológico que não vê sua filha crescer, apenas um espermatozóide perdido. Trago seus traços mas  não temos afeto. Além do que sou muito melhor que você.
__ Talvez a mais arrogante das minhas criações...
__ Arrogantes, débeis, idiotas, bacanas, mendigos e bandidos, sua fauna é exótica; talvez você atormentasse menos o mundo se procurasse uma psiquiatra.
__ Já pensei nisso, mas não estaria aqui neste momento se o tivesse feito.
__ Olhe pela janela.
__ O que há?
__ Vê aquele senhor moreno?
__ Sim, o que há com ele?
__ Nada. Ele entra no trabalho às 8h, 9H45 ele para e fuma um cigarro, até o meio-dia varre a alameda e depois das 14h molha as plantas, conversa com algumas auxiliares de enfermagem até ás 18h, quando vai embora. Todo dia é o mesmo ritual.
__ Mas ele não é minha criação!
__ Eu sei, eu sei... me ajude um pouco a elevar a cama. Quer um cigarro?
__ Eu aceito, mas você não deveria fuma no seu estado.
__ Pra quem vai morrer que diferença faz um cigarro a mais ou você é sádico também? Deve ser, mas voltemos ao moreno...
__ E então?
__ Ele não estudou, deve ser casado há muitos anos haja vista a maneira erótica com que ele aborda as empregadas, que sinceramente se deixam levar por qualquer troço! Deve ter uma vida fodida e morna. E algum autor criou esse personagem medíocre pra ter o mesmo fim que o meu. Com um pouco mais de sorte ele sofrerá menos que eu, talvez ele caia pra trás num enfarto fulminante. Mas o que brilha é inutilidade de criar pra matar. A toda sorte de gente, o mesmo fim. Fumando esse cigarro, de muito boa marca por sinal, eu posso te dizer que substâncias agem no meu corpo, que tipo e volume de hormônios me fazem estar neste estado melancólico. Posso dizer com precisão que parte do meu cérebro está reagindo às minhas palavras. Falo cinco idiomas perfeitamente, li todos os clássicos literários e médicos. Meu artigo sobre neuropsiquiatria serve de estudo e referência acadêmica e aquele homem moreno não sabe nem pra que serve o cérebro...
__ É o destino, você foi privilegiada...
__ Privilegiada com carcinoma isomórfico tanostálico, muito obrigada! Mas não é destino, você continua sendo cínico, como sempre em tudo a sua volta. Trata-se de vontade e frustração. O autor do homem moreno é muito mais feliz e equilibrado que você, ele criou um personagem com vontade, partindo do espírito mais naïf, mais simples pra que ele evolua, para grandir. Você me criou grande, bem formada, inteligente, competente e convencida. Os modestos têm suas razões. Eu fui a Florença, estudei as relações dos Medicis e Medinas, posso dar uma aula a qualquer professo de história da arte sobre arquitetura do Palazzo Vecchio, Le Duomo e Belvedere em italiano, sem sotaque. Conheci todas as galerias de arte do leste europeu e posso, de memória, lhe recitar poemas de Rimbaud num francês impecável...
__ Eu tenho muito orgulho de você.
__ Não, você tem inveja, porque você me criou como modo de exorcizar sua frustração. Eu fui onde você sonhou, eu sou o que você deseja. É por isso que você veio, por essa razão! Com estas flores baratas, constatar estes tubos infernais que me avassalam os orifícios. Você veio me ver morrer, porque quando eu não estiver mais aqui você terá a consciência tranqüila de que o seu alter-ego morreu.
__ Você seria capaz de virar pra si esse seu bisturi afiado e se auto-dissecar?
__ Por que eu perdia meu tempo? Eu vou morrer, esqueceu? Neste instante não cabe nada, tudo que me concerne já foi. Você acredita em vida após a morte?
__ Não, lamento dizer isso a alguém na sua situação, mas...
__ Não se lamente, eu também não acredito. E em eternidade, você acredita?
__ Como assim?
__ Você é burrinho, por vezes me esqueço. Contigo tenho que ser didática. Deixe-me reformular a pergunta de forma que sua cabecinha digira...
__ Muito gentil da sua parte!
__ Gentil? Nunca fui, é solidão mesmo, você é melhor que ninguém.
__ Obrigado pela importância!
__ Você não merecia mais, não deseja que eu seja afetuosa com alguém que vai me matar?
__ Eu entendo suas razões...
__Pois bem, eu falei de eternidade como a "Divina Comédia", eternidade como “Os miseráveis”, como “Madame Bovary”, é desse tipo de eternidade a qual me refiro.
__ Sim, assim é evidente que existe, a eternidade das obras. Veja os gregos, por exemplo, são e serão vivos pra sempre.
__ Fico feliz!
__ Mas o que te deixa feliz?
__ Você é o autor mais burro que já vi...
__ Delicada!
__ Verdade! Eu vou morrer, certo?
__ Certo!
__ Mas não morri, certo? Isso me lembra quando eu tinha cinco anos e estava aprendendo a contar...
__ Não morreu, ainda.
__ Isso ainda não, mas quando você terminar esta visita eu terei que morrer por uma questão de coerência com o título do conto e com o destino nefasto que você me escolheu...
__ Hum...
__ Mas quantas pessoas lerão este texto?
__ Sei lá, ninguém ou um milhão, eu sou um autor desconhecido. Por quê?
__ Porque em cada leitor eu estarei eternamente viva, moribunda, mas te maltratando e te humilhando. Por dignidade e amor próprio você poderá me ridicularizar depois da minha rica análise. Quando eu partir, recomeçarei todo o massacre outra vez. Foi uma péssima idéia você ter entrado no conto!
__ Tou começando a concordar.
__ Claro, seria muito mais fácil você fazer seus achismos com “X” sobre uma moribunda bem formada, fazendo considerações clichês sobre aquilo que você não sabe merda nenhuma. Talvez convencesse alguma leitora e quem sabe lhe desse alguma fama pelo tema. Desgraça vende sempre, mesmo que seja mal contada.
__Ainda não vendi nada.
__ Haverá seu tempo, nós estamos num hiato histórico tão violento que até você, um escritor de bordel, vai fazer sucesso!
__ Se eu tivesse te posto no comando de um hospital, com 30 anos mais jovem, em plena beleza e independência, você seria mais amena comigo...
__ Ou mais feroz! Pense bem, se quase morta sou capaz de te jogar o reflexo que o espelho esconde, imagine em condições de guerrear? Eu te escreveria, me tornaria tua autora. Um pouco mais forte e eu te devoraria.
__Não tome como uma vingança, essa estória me ocorreu na madrugada passada...
__ Não, minha história é com “H”, lhe ocorreu desde sempre porque eu sou a realização de suas frustrações e sua vingança não é contra mim. Como um psicopata você me criou pra me matar, porque assim você pensa matar a sua patologia, e entrou numa armadilha sem tamanho, me fez eternamente agressiva e cortante. Se deixou dissecar até as vísceras e essa história reviverá cada vez que um leitor se agarrar nela.
__ Xeque-mate?
__ Quase.
__ E o que falta?
__ sabe aquele senhor moreno, do qual falamos antes?
__ Sim...
__ Ele, talvez, não maldiga seu criador, como eu faço, contudo ele jamais terá do que se fartar. Ele é conformado com sua pequeneza e nunca terá um senso crítico a ponto de desnudar seu criador, é daquela gente que vive e morre por acidente.
__ E você é de que tipo?
__ Do tipo que te odeia por princípio ético, mas que te agradecerei por toda eternidade por ter me feito melhor que você: o contrário da sua mediocridade!
__ De nada, mas não se esqueça de que se eu lhe criei em esplendor e grandeza é simplesmente porque saiu de mim. Você é fruto da minha imaginação e mesmo que seja subproduto de minha frustração, você é apenas uma criação minha, um subproduto de minhas mazelas.
__ Agora falou como escritor. Baixe à persiana, por favor. E vá a sua vida.
__ Você sabe que seu eu parar de escrever você morre!
__ Mais cedo ou mais tarde, que diferença faz? Você não tem coisa melhor a fazer?
__ Tou escrevendo um segundo romance.
__ Interessante, divirta-se com sua nova fauna. Ah, não se esqueça de avisar a enfermeira que a morfina está perdendo o efeito, que não se demore...
__ Então, Adeus...
__ E leve essas flores ridículas e pobres.
__ Obrigado.
__ Eu que agradeço!
         Saí do quarto e desliguei a luz florescente que a incomodava, restaram os fortes raios do sol do verão, triste época do ano pra morrer! A enfermeira renovou a dose de morfina que a fez dormir, contendo em silêncio sua fúria de existir. Eu voltei à escrivaninha um tanto triste, mas foi inevitável: horas depois Lady Jane morreu de paralisia múltipla dos órgãos e terminei este conto só pra lhe homenagear como grande personagem, como grande mulher que só existiu na minha mente. Descanse em paz minha Lady. E o sol brilha do mesmo jeito!

Edu França 27/04/10

MEU ELE - Contos Fora da Minha Pele

Domingo, Outubro 02, 2011

Texto escrito no feminino, depois de uma certa conversa em que ela não soube exatamente o que me dizer e eu tentei traduzir”
                      Quando ele sai com seu trato mal–intencionado e displicência dissimulada de quem diz “vou ali”, me contenho no cinismo de inventar uma desculpa para que volte logo. E me rasgo sofrida pela condição de mulher que, por natureza, me dá o direito à arbitrariedade de não respeitar privacidade nenhuma. Por isso é inumano não exigir saber onde, quando, como e com quem ele esteve! Quem inventou essa tal de polidez cotidiana nunca amou e escreveu esse manual masoquista na frieza de uma vida só, com no máximo um gato gordo para alimentar. E eu me detenho, às vezes por medo de cansá-lo, às vezes por vergonha de ser antiquada, possessiva e ridícula. Ora, como se eu não soubesse que é justamente vestido dessas peças a interpretação do ridículo de amar dia-a-dia. Eu me contenho, mesmo sentindo que um dia vou cuspir o coração pela boca, mesmo sabendo que quando forjo uma desculpa para seu regresso breve faço do tempo que ele volta, do momento comigo e de mim parte da desculpa; e sinto pena de mim, porque aí constato que ele não voltou, fez uma benevolência. Ele me torna uma mendiga sentimental!

            Quando ele sai meu corpo gela e a sudorese da distonia me trai, encharcando mãos e pés, fico assim: molhada de temor de que ele vá atravessar oceanos perigosos sem saber voltar. E me afobo, asfixiada do medo que ele esqueça que só o meu amor lhe pode fazer bem; porque eu, como mulher, assim decretei. Tenho pavor tactual de pensar em nunca mais tocá-lo, como tenho ira colérica de matar, sem compaixão, todas as mãos que já lhe tocaram. Nesses momentos noto que preciso bater em toda psicanalista diazepanada, que de fale de equilíbrio emocional. Aí, neste exato momento, grito caralho em alto e bom tom. Dói doído só de pensar no seu jeito calado, no seu sorriso inteligente, no seu modo calmo de contar suas aventuras a outras mulheres. Eu me retenho para não sair a sua procura, mesmo humilhada e sub-julgada. Penso vinganças horrendas, desde afastá-lo do seu filho até me deitar com o primeiro que aparecer. E me suspendo porque nisso de deitar minhas pernas tremem, meu corpo amolece e uma série de arrepios me toma a pele só de pensar no seu jeito safado, ordinário, indecente, depravado de deitar. Ele me faz uma viciada sexual!

            Quando ele sai, encho os pulmões de ar, envergo a armadura da dignidade para matar esse monstro de ego, que me devora e me faz a pior das loucas. Fico pronta para estrangular esse sistema perverso de humilhação indireta, de dependência camuflada, de cativeiro aberto e escravidão voluntária. E me reforço porque ele faz, e sabe fazer de propósito, seu sistema de vida e morte sem ser claro, numa fumaça de palavras dúbias e gestos metafóricos. O meu bandido que me invade, mas já com a fuga preparada. E nada do que faz é direto, me transformando numa neurótica muda, já que seu sistema ambíguo de me fazer mal não permite contra-argumentos; a não ser que eu arrisque passar pela perseguida, vendo fantasmas. Como ele é cruel e deliberado, com aquele sorriso de demônio traquino. E me preparo contra todos os subjuntivos possíveis, contra suas dubiedades de intenções, contra sua metafísica de me perder; dou nome a cada a cada boi, numa organização mental meticulosa, jogo o jogo dele! E me reforço, bebo nas grandes mulheres, encarno Simone de Beauvoir e cantarolo Roberto Carlos: “preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo...”. De oprimida à rebelde, libertária e vitoriosa. Ele me torna uma mártir de mim!

            É agora um enigma decifrado, ima xarada óbvia, um jogo calculista manjado. Pronta, não para acabar, mas para decaptar o algoz que não teve a misericórdia de me finalizar e me manteve viva o suficiente para sentir o sofrimento; carrasco que optou pelo meu estado de semi-coma sentimental; quando minha emoção padecia de um câncer letal ele me negava a morfina, como um sádico. Foi me assassinando assim: veja mas não queira, queira mas não toque, toque mas não prove, prove mas não repita, até este extremo lastimável.  E me recapitulo, ponto por ponto, palavra por palavra, reensaio mil vezes todas as caras e bocas, rememorizo tudo que lhe vai ferir, não pode faltar nada e afio a espada que vai desferir o golpe final, e erguer às alturas meu grito de independência.

            Quando ele chega é dos diabos, tudo passa, meu coração bate compassado, nada disso aconteceu, ele me beija com paixão e eu sou feliz!

Edu França 11/12/2009

NO DIA EM QUE A LEI MUDOU - Contos Fora da Minha Pele

O Parlamento aprovou, o Presidente outorgou e a Sociedade, divida, aprovou na sua maioria: a partir do dia primeiro do mês vindouro está liberado o consumo e descrimilizado o comércio de drogas. O Parlamento tomou o cuidado de não criar uma nova lei, apenas pegara a lei existente e a reescrevera com o novo conceito liberal para evitar incoerências do tipo Lei “x’” permite e a Lei “y” proíbe, sendo assim a permanência de uma única Lei “x”. Isto obrigou os Tribunais ao enorme fardo de rever todos os processos criminais da Lei “x”, desde que foram detidos recentemente, passando pelos os que esperam julgamento até os sentenciados que já carregavam anos de cadeia.

            A sociedade tratou logo de se adaptar à nova realidade, droga era na drogaria. Polícia de trânsito carregava a mão nas multas por condução drogada. Transportar droga sem nota fiscal dava cadeia, não por tráfico, mas por contrabando. O Estado enchia o bolso, 28% a taxação em  cadeia, desde o produtor, ao comprador até o consumidor final. Fez disparar o preço da droga num primeiro momento, mas como todo trâmite estava legalizado já não era preciso pagar subornos altíssimos às autoridades, nem transportes cinematográficos, o que ao fim baixou outra vez o preço, foi dar quase ao mesmo. Hospitais foram criados para tratar desde dependentes, em busca de cura, até às doenças oriundas do uso contínuo. A violência urbana diminuiu drasticamente, não havia mais traficantes defendendo seus territórios, nem dívidas a serem cobradas com sangue; pagamento de droga poderia ser feito no cartão de crédito para até 90 dias ou parcelado em três vezes sem juros. Algumas famílias tradicionais da elite local caíram drasticamente de padrão social, sem uma explicação muito clara. Enfim viviam do tráfico. Só maiores de 18 anos poderiam comprar como o álcool ou o tabaco; mas todos compravam, como o álcool ou o tabaco. Os conservadores gritavam números exorbitantes de viciados, os liberais disseram que nada mudou, apenas saíram do armário aqueles que sempre curtiram um barato na surdina; assim algumas famílias se desfizeram e outras fizeram-se pela mesma razão. Pela primeira vez o fluxo demográfico era o contrário ao normal, centenas de famílias voltaram ao campo para o cultivo da cannabis, papola e planta de coca. As universidades criaram cursos para demanda específica industrial de refinadores, manipuladores e químicos dedicados à qualidade suprema. O curso de farmácia criou a especialização em LSD. Parte da fortuna arrecadada pelo Estado, só em impostos de renda, foi parta criar centros de reabilitação para os que cometessem crimes em nome da droga, com tratamento mínimo de 12 meses; quase não se ouvia mais essa justificativa para furtos leves, além do que todo crime grave cometido em nome da dependência era considerado hediondo e com circunstâncias agravantes, o que obrigava os juízes a aplicar a lei com severidade e sem clemência.  Ninguém mais matou usando a droga como pano de fundo. Enfim, a sociedade moldou-se ao novo filho e o velho homem humano continuou seu passinho lento, dissimulado e viciado em procurar culpados para suas mazelas voluntárias.

            Os presos pouco se importaram quem inventou a lei e os seus porquês! Queriam reencontrar à liberdade que lhes foi tirada por um crime que deixou de ser crime, muito simples! Menos Sr. L que perdeu 8 anos da sua vida numa prisão, clamando inocência do crime de tráfico de 15kg de cocaína. Quando soube da nova lei não se alegrou, não tardou em chamar seu advogado e exigir uma audiência com a juíza do caso, que já tinha sido julgado há muitos anos. Faltava apenas uma semana para a nova lei vigorar, e o advogado, sem entender às razões do seu cliente, marcou a audiência em caráter de urgência com a juíza. Não havia razão de ser, pois seu cliente havia sido condenado à 16 anos e nessa alteração sua mais valia era de 8 anos. A juíza aceitou uma audiência informal, como benevolência a um julgado seu, e tinha plena convicção de que se tratava apenas de um esclarecimento sobre a novidade jurídica.

            __ Bom dia Sr. L! Primeiro quero que saiba que só lhe recebo em deferência ao seu comportamento exemplar nesses oito anos de prisão.

            __ Obrigado e eu não vou tomar muito tempo da Sra. Posso me dirigir a si como Sra.?

            __ Claro, isto é apenas uma conversa de esclarecimento.

            __ Isso mesmo, de esclarecimento. Eu estava condenado a 16 anos... – foi interrompido pela juíza.

            __ O Sr. L está condenado à 16 anos até às 23:59 do próximo dia 30, à 0 hora do dia primeiro está livre.

            __ Esta é a questão. Eu sou inocente e passei oito anos neste tribunal, em outras instâncias, recorri ao supremo, gastei meu apartamento, minha esposa, meus filhos e minha reputação tentando provar minha inocência, que sempre foi negada. E agora tudo acaba como se nada tivesse acontecido!

            __ E não é maravilhoso? Nada aconteceu! Nem ficha criminal o SR. L terá.

            __ Desculpe-me, mas isso é dos diabos, e quero sair desse processo como inocentado!

            __ Mas vai, como todos!

            __ Aí mora meu problema, eu não quero ser inocentado junto com culpados.

            __ E que diferença faz?

            __ A diferença é que eles cometeram os crimes, eu não!

            __ Sr. L,  eu acompanhei sua “via crucis” por todos estes anos, seus apelos, seu esforço para provar sua inocência. Se me fosse dado o direito de lhe julgar hoje, depois de o conhecer de perto, por oito anos, e conhecer ainda mais o comportamento do seu companheiro de acusação, confesso que acreditaria na sua versão, de que não sabia dos 15kg de cocaína no carro!

            __ E eu não sabia mesmo, peguei uma carona de dez minutos depois apareceu toda polícia do mundo... e isso me custou 8 anos!

            __Pois é, seu companheiro foi flagrado muitas vezes cometendo tráfico na prisão ao passo que o Sr. nunca sofreu, sequer, uma repreensão disciplinar. Mas todo juiz tem um tempo para fechar um processo e julgar o caso. Eu tive meu tempo!

            __ Mas ao menos poderia acreditar no que eu disse...

            __ A sua ingenuidade, Sr. L, é algo raro nesse mundo e louvável, mas me permita arranhar sua jóia rara: veja bem, o Sr estava num carro que se dirigia a uma entrega, seu companheiro negou tudo, inclusive a posse da droga. Que veredicto o Sr esperava? O Sr se disse inocente, o seu companheiro também, a droga veio do céu?

            __ Mas não foi um veredicto baseado na verdade!

            __ E quem disse que os veredictos são baseados em verdades?

            __ Tinham que ser afinal são vidas e anos perdidos.

            __ A verdade, Sr. L, não se compra num supermercado, nem muito menos sai da boca do homem. Quantos, todos os dias, juram inocência aí nesta cadeira onde os Sr está? Um veredicto se dá nas provas materiais da acusação, nas provas materiais da defesa, nas alegações da promotoria pública, nas alegações da defensoria e por último no depoimento dos envolvidos. Francamente o Sr acha que sobra alguma verdade nestes vãos, que vão se abrindo na obrigação de um juiz? O Veredicto tomba para o lado no qual a versão é mais convincente, e, sinto lhe desapontar, o que menos incomoda o Tribunal é a questão da verdade.

            __ Mas isso não é fazer justiça!

            __ E quem disse que o Tribunal faz justiça? O Tribunal apenas aplica a lei.

            __ Isso é absurdo!

            __ Eu concordo com o senhor neste ponto. A malha e o enredo de um processo é completamente absurdo. Minha vida neste ofício sempre foi ler inocências na cara de uns e condená-los pelos fatos, e ler culpa na respiração de outros e inocentá-los pela ausência dessas mesmas provas. Como agora que converso com um apenado, que em uma semana será um homem livre, sem passado judicial.

            __ Mesmo assim eu vou processar o Estado por este tempo perdido de minha vida.

            __ O Sr pode tentar, mas não vai conseguir nem arrancar com o processo!

            __ Por quê? Sou proibido?

            __ Não, o Sr L tem todos os direitos civis devolvidos a partir dia primeiro. A questão é: o Sr foi condenado exclusivamente pela Lei X. Não existe Lei nova, como comentam os leigos, e palpitam aos quatro ventos. Há uma alteração completa na lei X, que a partir do dia primeiro diz que o Sr, e mais alguns milhares, não cometeram crime algum. Portanto não poderá processar o Estado por não ter feito nada.

            __ Eu não posso permitir que oito anos, que arruinaram minha vida, sejam tratado como nada.

            __ Mas é exatamente como o Sr vai se encontrar daqui a uma semana, nada aconteceu.

            __ Desculpe-me, eu não posso admitir. A Srª falou que é um alteração da Lei X, certo?

            __ Certo!

            __ Então eu posso pedir uma revisão do processo mediante a Lei X antes da alteração.

            __ Abriria uma jurisprudência interessante e penso que o Sr seria o único a tentar, mas no seu caso seria nulo porque o Sr foi condenado no Supremo Tribunal e não há instância superior, portanto não há saída para sua vontade...

            __ Mas haverá muitos casos que se abrirão em busca de indenizações.

            __ Neste caso a lei X é muito clara, tráfico deixou de ser crime e a alteração dela apenas abre os casos a título de estudo jurídico. Mas não há tribunal que aceite o pedido de indenização por um crime que você não cometeu perante o código penal atual, além do que essas revisões durariam uma vida inteira.

            __ Essa mudança altera vidas, descarta anos, faz do errado certo como uma assinatura. Como se não houvesse conseqüências!

            __ Isto é para o Sr° parar de acreditar demasiado nas instituições humanas. Onde houver a mente humana haverá mudanças constantes. Como sei que o Sr é um homem inteligente e culto me permito lhe dar alguns exemplos de mudanças desse porte que nos concerne!

            __ Vejamos se me consola...

            __ Pois bem, o que me ocorre agora, primeiro, é no Império Romano, em que ser cristão era punido com a pena de morte e um dia o Império adotou o cristianismo como religião oficial; quem pagou pelos mortos antes da antiga lei? Ninguém! Na Grécia antiga todo homem poderoso tinha um pupilo ou amacebo, com quem mantinha relações homossexuais e era tudo da lei. Durante a idade média a homossexualidade era punida com a pena capital pela inquisição, queimado na fogueira, séculos depois Oscar Wilde foi processado pela acusação de pederastia e a Alemanha Nazista executava-os, na mesma Alemanha que hoje legalizou a união entre pessoas do mesmo sexo, inclusive adoção de crianças. Na Inglaterra da pré-revolução industrial o trabalho feminino era crime, de um dia para o outro passou a ser obrigatório, assim como o direito de voto. Durante a lei seca americana, beber era crime sério e um dia acabou como o Sr disse: o errado virou certo. Há vinte anos falar bem dos EUA rendia uma condenação perpétua nos calabouços comunistas e um dia alguém assinou um papel e ser capitalista deixou de ser crime, os prisioneiros foram soltos. Muitos quiseram processar o Estado, como o Sr, mas que Estado processar se tudo havia acabado? Aqui, um dia dormimos com a ditadura e acordamos com a democracia, uma criminosa política virou presidente e faz uso da voz do Brasil, criado pelos militares que a condenaram! A história humana é repleta desses absurdos, é do homem ser absurdo.

            __ Então vou sintetizar meu absurdo particular: dia primeiro eu estou inocentado de um crime que não cometi e condenado a jamais provar minha inocência!

            __ Só uma correção importante: o Sr não está “inocentado”, porque isso presume uma acusação que a partir do dia primeiro jamais existiu. E condenado a nunca conseguir provar sua inocência, haja que não cometeu crime algum!

            __ Isso é humano?

            __ É da Lei, precisamente da Lei X!

            __ Então é absurdo.

            __ Exato, é absurdo como tudo que humano!

Edu França, Paris 12/12/2009

RENDEZ-VOUS DÉCALÉ - Contos Fora da Minha Pele

Terça-feira, Agosto 30, 2011

__Bom dia.

__ Quantos anos!

__ É faz tempo!

__ Sumiu.

__ São as complicações da vida...

__ Clichê!

__ Contundente... Nem tudo se perdeu.

__ Quase tudo se perdeu!

__ É a vida.

__ Não, é nossa covardia.

__ Talvez irá chover!

__ Talvez é longe e o tempo é o que é!

__ Afastamento...

__ Mas não culpemos o tempo, nem a distância...

__ É verdade, sempre estivemos longe e em outro tempo, mesmo quando dividíamos a mesma cama!

__ Acerto de contas com o passado?

__ Não há contas a acertar com o passado, seu lugar é no silêncio do imutável.

__ Preciso de um café!

__ E talvez um cigarro, certas conversas te excitaram ao ponto de procurares teus subterfúgios.

__ Eu sou covarde!

__ E quem não é em certos momentos?

__ Essa fila não anda...

__ Bancos são sempre assim...

__ Mudaste pouco.

__ Só o tempo que escultou algumas rugas indesejadas.

__ Também tenho as minhas...

__ Ninguém passa imune ao tempo...

__ Ela cresceu!

__ Evidente!

__ E não te instiga a curiosidade?

__Cultivar dores não fazem parte de minhas paixões!

__ Ela é uma dor?

__ Agora não, mas já foi num tempo distante...

__ Gosto do aroma do teu cigarro mentolado...

__ Cigarros franceses que amigos me enviam com carinho...

__ Nunca me interessei pela França, muito menos por Paris.

__ Eu não seria o mesmo sem Paris, meu barraco de noites brancas!

__ Começou a choviscar.

__ Eu bem disse...

__ Há muita coisa que tu não disseste...

__Tenho um dicionário de coisas que não disse mas agora é demasiado tarde para este dicionário mudo, só tem seu lugar no cemitério das palavras engolidas...

__ Algum recado?

__Muitos, tu não sabes quantos, mas o mais sábio é que não digas que me encontrou.

__ Não há espaço?

__ Prefiro ser o mito do exilado nas ruas de Paris a ser um negligente com uma mala pesada de passado.

__ Ainda é cedo, creia!

__ Cedo para que? Tudo me soa velho e doloroso!

__ É minha vez.

__ O tempo passa...

__ Fica tudo como sempre.

__ Nada será como sempre, só nós sabemos...

__ As palavras travam-se na minha garganta...

__ É culpa dos anos, não se atormente!

__ De quem é a culpa?

__ De ninguém, talvez do próprio tempo.

__ É minha vez!

__ Vá e não diga que me viu, nem ao espelho.

__ Impossível!

__ Meu lugar é voar de um lado para outro, eu nunca tive tempo para ti, na verdade nunca houve nós!

__ Talvez!

__Vá!

__ Mas ficará algo por dizer...

__ Haverá sempre muito a dizer que se calarão no escuro dos anos!

__ É, é melhor esquecer esta fila...

__ Seria melhor esquecer essa parta da vida!

__ Tu consegues?

__ Eu tento todos os dias e me pego numa armadilha, quanto mais fujo, mais recordo e isso não passa.

__ E mesmo assim me dás receitas perfeitas?

__ O que é perfeitamente eficiente em matéria de culpa?

__ Não sei, sinto igual!

__ Vá, não se atrase!

__ Vou sim...

__ Amanhã esse momento será apenas um grão de areia nesse longo passado.

__ Adeus!

__ Até a próxima fila.

__ Que isso não aconteça!

__ Espero o mesmo!

__ Só uma última palavra, sua filha cresceu a sua cara!

__ É apenas sua filha, adeus! – e a fila andou enquanto eu fiquei no amertume desse encontro desajeitado.

Eduardo França

07/02/2011

 
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