UM TEXTO NORDESTINO

terça-feira, novembro 04, 2008



__ Boli nesse pitoco, mulé!
__ Oxe, dinovo, homi? Deixa de tua agonia, criatura!
__ Né agonia não, é o nengocio que num funciona direito, deve ser o calor demais, nem essa tal de televisão funciona direito... esse mormaço da bixiga lixa, agente fica afobado, um calor da febre do rato que sobe, vou beber uma aguinha cacimba pra ver se alivia...
__ É a Telma, né bichino?
__ Nem me fale, nega! Esse menina espivitada, cheia de crista, topetuda, foi simbora, de nariz arrebitado, diz que num volta mais! Hum, se a vida fosse do jeito que agente quer era fácil, se vontade fosse milagre o sertão era as zoropa, minha dor é saber que mermo que ela volte, eu já perdi minha menina, aquela menina que gostava daqui, que gostava de ser daqui morreu...
__ Deixe ela, homi. Não se preocupe não, mó de que aqui agente tem sempre o cantinho dela e feijão na panela nunca faltou nem Nossa Senhora da Conceição há de deixar faltar...
__ Vai vim é prenha de lá, isso sim! Agente criou ela muito afolozada, cheia de gosto, e quem nunca comeu quando come melaço lambuza os beiço!
__ Essa tal faculdade mexe com os meninos, né? Eles deviam ficar mais aqui, ser mais gente agente, mas desbunda por lado sul, e depois nada disso aqui presta, é uma ingrtidão que só Cristo pra ver!
__ É nada, mulé, isso é vontade de voar quem nem bem-te-vi, no meu tempo agente ia pra sumpaulo, trabaiava que nem uns miseravi e despois agente vortava lascado, doente, uns inté morria por lá, era um mói de coitados... hoje os coitados tem tudo anel no dedo, é tudo doutô... e vai tudo por sur maravilha, perde raiz, nega que saiu do sertão, vira uns bichos sem pai nem mãe, arremendano os sulista e virano motivo de piada, mas me diga mulé se o povo num tem razão de desconfiar de uma gente que nem gosta de onde veio? valor, minha veia, agente se dá, porque né ninguém que vai dar! Num tapia ninguém assim, fala de nós e deixa de ser nosso, mas também vira sulista nunca...
__ A Telma já mudou o jeito de assuntá com agente, é um tal de ti pra lá, um tal de ti pra cá, oxe quem já se viu isso? Na carcunda da gente pesa as escolha da vida, ela escolheu esse mundo longe porque tá achano que vai ter amparo, vai nada, fiu. Nesse mundo grande de Deus quem toma conta é o diabo, e ele não tem compaixão de gente fraca! Ele distrói, mói que nem milho pra canjica, depois joga o bagaço fora.... que Nossa Senhora Fátima me dê força nos braços pra amparar minha fia, que não sabe onde se meteu...
__ Quando é pirraia agente pega pelas oreias e bota num canto de castigo, inté a raiva passar, mas despois de grande, galalau agente faz o quê? Vai perder, do mesmo jeito que vi tantos, a juventude com vergonha de voltar e assumir seu papel nessa vida. Mas o que deixa aperriado mermo é ver essa menina se virando numa coisa diferente, ela já num é minha bezerrinha, ela agora é do sur, diz que tá feliz, hum! Pai sente felicidade de filho pela respiração. Ela é só mais uma coitada nessa máquina de moer gente, que nem a máquina do engenho vai moendo a cana... o bom da idade é a satisfação de num querer ser diferente daquilo que num vai mudar nunca.
__ Tome seu café e seu remédio de pressão, não se avexe, porque enquanto seus males são velhos os deles são novos e vamo parar de assuntar mó de que já vai passar o programa do Silvio Santos...
__ Oh, mulé que seria de mim sem tu, visse! Tu sempre fosse essa rocha desde de menina, sempre fosse meu salzinho do sertão, a quem essa menina puxou meu Padim Ciço?

8 comentários:

LETÍCIA CASTRO disse...

Eita coisa boa, um texto escrito assim. Coisa boa é esse povo tb, como é a frase: "Sou bravo, sou forte, sou filho do Norte", não era assim?
Tenho muito contato com essa gente de perto e adoro ouvi-los quando entendo e quando não entendo, a gente entende de outro jeito.
Beijos pra vc!

Marcio Sarge disse...

Isso tudo é saudade do Recife? rs

Eita prosa gostosa ser lida, ainda é cheia de tantas verdades da vida...
Espero que esse talento todo não fique na gaveta.

Abraço.

Caroline disse...

O texto é engraçado, eu me lembrei de uma vizinha que morou pertoda minha casa, ela falava assim mesmo... risos... e rapidinho ainda!

Quem não valoriza suas origens, não aprendeu valores, e se todo mundo que viesse para "SunPalo" vierasse doutor "tava bão", não é?

Muito legal seu texto :)

http://pollyefeffer.blogspot.com/

carla m. disse...

Estranho te ver falando de raízes e origens...

Eu desconheço o que seja não ter orgulho do pago, do nosso cadinho de chão. Cresci cercada pelos orgulhos declarados, pelas delimitações identitárias e pela alegria da sua própria irracionalidade.

Deve doer renegar o caminho.

Abração,

Elaine disse...

Sardades de ti lindo!

Elaine disse...

Sardade de ocê bichinho!

Cisco disse...

NOSSA!

FANTASTICO... Claro que entendi tudo... Nordeste na vêia hihi


Abraços
Cisco
www.borarir.net

Fábio Flora disse...

Diálogos cheirando à carne de sol e rapadura...

 
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