Segunda-feira, Maio 04, 2009
Não há voltas. Não há resgates. Tudo já passou e não resta nada de antigo a ser dito ou visto. As mesmas caras de antes já não são as mesmas; são novas caras envelhecidas e os mesmos problemas de sempre são sempre novos problemas, enraizados, piorados, ressentido: mas volta não há! É tudo novo, até o gosto da azeitona roxa da infância distante é mais ou menos doce que antes. Mas não é a mesma! Algo se quebrou e o menino se perdeu.
Vi de muito longe a criança descalça que corria inventando cidades e correndo atrás dos papagaios de seda e paleta de coco, o menino que sonhava em conhecer o mundo no balão de Júlio Verne, ele passou na minha frente de olhos verdes e sorriso fácil, ele me olhou, riu de mim, como quem goza de um tolo. Eu queria tocar na sua mão, afagar seus cabelos lisos e assanhados, rodar o peão com ele, subir a pipa outra vez, mergulhar nos lagos do Golf Coutry Club, rir dos deboches dele, das traquinagens mahosas e das histórias que ele inventava. Senti de perto o cheiro de alfazema dos banhos no fim de tarde, vi todas as brincadeiras noturnas: pega-esconder, barra bandeira, academia… eu ali parado, olhando, ele lá correndo, rindo de mim. Ele poderia ser eu indefinidas vezes no eterno retorno que só as entidades do passado tem direito, e eu figura do presente, estando condenado a passar e nunca mais regressar, hei de ser sempre figura de chacota. A única eternidade é o passado, como numa fotografia: imóvel e melhorada no sentimento que escorre.
O nariz aponta para onde a ponta do sapato se dirige e o próximo passo é o que ficará na galeria dos imortais e tudo já passou, menos o menino que corre e corre, descalço nas ruas de terra, correndo atrás do bom vento dentro do meu coração; no momento em que sou pai, filho e menino. Subo no balão do minha infância, mesmo envelhecido, sonho sonhos pueris e continuo rindo de tudo como se nada fosse mais sério que a pipa que sobe. Sentindo que na verdade tudo já passou!


5 comentários:
Que maravilha!!
Através desse texto viajei tão fundo à minha velha infância...
Obrigado!
Abraço Edu
Sabes Bichinho meu, eu admito que choro!!!!
Lendo, relembro com cara de babona, com sorriso de menina e vontades, muitas,, de também poder assim guardar incrustadamente dentro de algum lugar de mim, o gosto das azeitonas pretas da casa da avó que ja nem existe mais, a nao ser do lado de dentro, teu dom, bichinho meu, sai de ti para me sacudir, internauticamente, admito, tu me tocas sempre, e é sempre muito mais que bom.
Voltei a todas as ruas, me lambuzei com todos os gostos, chorei de saudade e agora te deixo um beijo por teres feito o meu domingo melhor.
Quero-te tanto bem que chega a ser engracado, hahahahaha, beijos bichinho.
Nossas eternas saudades: infancia, adolescência, algumas ja adultas, mas sempre saudades, de uns tempos que a pureza existia de verdade, os sonhos muitas vezes até tornavam-se reais. Ah, a eterna saudade a nos fustigar. Quando as lembranças são boas causa-nos enorme prazer, se não é melhor esquecer... Belo trabalho!!!! Parabéns!!!!
Nossas eternas saudades: infancia, adolescência, algumas ja adultas, mas sempre saudades, de uns tempos que a pureza existia de verdade, os sonhos muitas vezes até tornavam-se reais. Ah, a eterna saudade a nos fustigar. Quando as lembranças são boas causa-nos enorme prazer, se não é melhor esquecer... Belo trabalho!!!! Parabéns!!!!
Nossas eternas saudades: infancia, adolescência, algumas ja adultas, mas sempre saudades, de uns tempos que a pureza existia de verdade, os sonhos muitas vezes até tornavam-se reais. Ah, a eterna saudade a nos fustigar. Quando as lembranças são boas causa-nos enorme prazer, se não é melhor esquecer... Belo trabalho!!!! Parabéns!!!!
Alberiana V. França
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