Terça-feira, Julho 26, 2011
À meio do meu Jack Daniels faltou-me charutos cubanos, então me dei com a careta realidade de que cafés em Paris não podem vender cigarros. Fechei a conta no Irish-coffe, na Place de Nation acelerei o passo até à tabacaria Voltaire, na Boulevard Victor Hugo, porque elas fecham às 20 horas; acendi o meu Havana, baforei do ar com prazer e me lembrei de súbito que nunca bebi, nem fumei, muito menos fui a Paris. Angustiei-me e achei que caminhar rápido pudesse, talvez, arranjar as ideias! Não arranjou e me perdi entre ruas estreitas, comércios Árabes, táxi-fones marroquinos e fiquei com esse francês rápido, abreviado que sugeria uma variação magrebe e jamais uma língua latina, assim como surdo e sem vontade de falar sentei-me num piano-bar que tocava Chet Baker, talvez o último de Madelaine, varrida pelo comércio do ouro, o vocalista tinha o mesmo timbre de voz “... my funny Valetine, you make me smael forever...”. Me acalmei no trompete e me achei mal colocado no mundo como um piano-bar à Madelaine. Talvez fosse mais apropriado à Montparnasse, pelos cafés Le Dome ou La Ronde ou no Bordel Martoune. Mas o Bordel Martoune hoje é uma praça e tudo foi empurrado para não sei onde, Montparnasse já não é o que foi, e o destino de tudo seja, talvez, estar mal colocado como uma praça e um bordel, memória que não era minha, como hábitos implantados, sentindo nostalgia do passado dos outros e até criticando a Montparnasse do meu sonho, sem sequer saber como se chega lá. Então eu era a agonia da consciência que me sufocava de súbito num abraço apertado, entre o que restou de mim e o que de mim foi sonho delirante e o piano-bar jazzista, mal-endereçado a Madelaine me parecia agradavelmente realista!
Mas de que serviu discutir identidade cultural se eu não passava de um invasor de mim mesmo, cheio de referências falsas e emblemáticas de convenções velhas, é o truque do outro. Que outro? Embalei à caminhada nas minhas pernas longas e a palavra truque me veio em francês “truc”, seguida de um ódio vasto pelo amplo sentido dessa pequena palavra que em francês tem qualquer significado e no cotidiano apressado serve pra definir todo substantivo, algo parecido com a palavra “coisa” em português, a qual o poeta Manuel Bandeirajá criticou com ardência, dizendo que o “o brasileiro não sabe o nome dos objetos e a tudo chama coisa...”. Meu ódio é o mesmo, mas tudo abafado por eu não saber quem foi Manuel Bandeira, e “voilà” o “truc” essa doença de não ser eu, que só pode se chamar coisa, por não ter o nome. Agarrei-me na coisa e me fui pelas quebradas de Chateau Rouge, onde a França é mais Olindense, porque era a Olindense sim, a olindense que falava mole, de quadril largo, coxas grossas, peitos duros de deixar, era a mulata quem sabia quem eu era. Estava em Barbés, uma Salvador gritando em francês duro, que deixava claro que o negro nasceu para embelezar a Língua Portuguesa, falando suas oxítonas terminadas em “ão”, como seus diminutivos em “inho” e “inhas”. Meu nome, por exemplo, deveria ser painho, amorzinho ou safadinho. Ela só me chamava assim. Talvez tenha deixado minha identidade com ela, mas o que eu sei dela senão que é deliciosa, fala mole e é mulata de eu não me aguentar? Parei diante da Gard de Barbés e me dei conta de que em Paris o buraco é mais bicudo e que gente de fala mole dura pouco por essas bandas. Segui a Avenida Pigalli, quem sabe ela não estaria onde a deixei: putíssima à alameda da Avenida? Seria uma prostituta que roubou minha identidade? E que diferença faria se fosse uma médica? Fui direto ao Almeida, da pastelaria Belém, ponto de encontro de portugueses em Paris. Ele ergueu os braços, me saudou “ À quantas andas, pá?”, “Bem, obrigado”, num gesto automático me serviu um café duplo e uma dose reforçada de bagaço, aguardente de uva, meu paladar assinalou bom conhecimento. Deu vergonha de perguntar ao Almeida, que conhecia tão bem meu gosto, quem eu era ou se ele conhecia uma olindense que roubava identidades, a qual eu não sei se era médica ou puta! Tomei outro bagaço, e esse me desceu com outra saudade, uma saudade lusa, quando falaram do minho, do vinho verde, dos caralhos que voavam mansos como carícias, da jardineira, do bacalhau com natas, de chouriço flambando no bagaço, do carneiro à minhota, e tudo isso era meu sem ser eu. Não sei o valor, mas parte mim ficou lá, naquela terra que fiz coisas incríveis, que vivi coisas delirantes, que senti o ferro quente da vida e que um dia eu virei às costas e segui outro rumo, como se faz às amantes, mas eu sei que algo de mim ficou lá, mesmo que eu tenha certeza de que nunca fui lá. Ao terceiro bagaço o Almeida deu-me a garrafa. Sai de garrafa na mão, um tanto envergonhado, contudo muito lisonjeado, afinal, ao menos alguém me conhecia e gostava de mim. Eu não me lembro a quem daria uma garrafa de bagaço! Fui atrás de minha olindense, porque era dela meu prazer; eu de garrafa debaixo do braço mais parecia um retardatário do carnaval, do carnaval de mim mesmo!
Ao meio da madrugada ninguém confunde um rebolado, e claro que parisiensi rebola, sobretudo as deusas do Ébano, mas minha olindense não rebolava, desfilava. Lá ia ela subindo as escadas de Momartre, com seu gingado um pouco pra cá, um pouco pra lá, eu seguia encantado e sem fôlego, me atropelei e lhe agarrei o braço. As minhas mulheres sabem o peso da minha mão, voltou-se de sorriso no rosto, cheirosa como só ela, me beijou como só ela sabe, mordiscou meu lábio inferior e afagou meu peito. Passei da guerra à paz naquele minuto sem voz, minha boca de aguardente e charuto, seu lábio de framboesa e sexo, murmurou ao meu ouvido: “volta, painho”. Ela seguiu seu rebolado e foi desvanecendo como brilho ao vento. Já não existia! Uma poça de lama refletia minha cara e era mais velho do que o ontem da minha memória. Continuei onde sempre estive, sem saber quem sou, num lugar que não é meu, amando uma mulher imaginária; dei meia volta, cheio de cicatrizes, arrumei meu chapéu panamá e comecei a caminhar de volta, com charuto na mão e aguardente debaixo do braço, alguém gritou “Zé Pilintra”, que orgulho ser confundido com meu padrinho! Larguei passos no ar, com vontade, e do fundo me vinha um coro animado, embalado. Eu sofrido de todas as memórias de todas as vidas que vivi sem ser o dono, só queria voltar. Mas voltar para onde? E a descida não parava, era embalo rápido e o coro crescia cada vez mais, e eu conhecia a canção: “ ... Voltei Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço ...” e um solo de metais arrepiantes seguia o verso, meu bagaço continuou amargo como a vida, meu charuto forte como o presente e meu chapéu como a tampa de eu nunca mais fugir. Quando desci a Ladeira da Misericórdia até os Quatro Cantos, Olinda danou-se em mim e eu continuei sem saber quem sou, mas certo de que aqui eu sou mais Eu!
Eduardo França
Escrito em 22/01/2011


12 comentários:
Caralho que estilo em velho fuma charutos em Paris e depois ir pro Bordeu Muito foda firei fã
Gostei. Gostei muito.A forma descrita dos atos e sentimentos... A viagem a um lugar nunca conhecido. O prazer de algo que nunca sentiu. A BUSCA DO SABER! SABER QUEM É VOCÊ.
Muito bem escrito. Bem explicado. Com emoção e ação.
Gostei muito.
Parabéns...
Eita, Edu, uma liquidificada de Baudelaire, Proust e "Meia-noite em Paris" com não-sei-quê tropicalista! :-) Foi absinto com água de coco, o drink? Beijos, sucesso e bons escritos!
Gostei de como os momentos são descritivos em cenário e sentir da persona... Muito bom de se ler!
;D
Qualquer episódio que tenha Chet Baker de fundo merece respeito. Tem lá sua tristeza e seu charme!
Muito legal, tem partes la que faz nossa mente imaginar muito.
XD na boa gostei do estilo mesmo
Parece um sonho sem nexo!
Mas bem escrito, achei um pouco cansativo.
Abraço!
São meus sim, e são contos longos, que ficam longe da linguagem da internet, mas eles me agradam assim, grandes e eloquentes
Eduu, seu texto é muito bem escrito e eu adoro crõnicas.
Parabéns !
Bjo ;)
Ultimamente, tenho rejeitado longos textos em blogs desconhecidos. Quase sempre me decepciono. Aqui foi diferente.
Também amo aquilo que só existe pra mim.
Gostei do seu jeito de desenhar com as palavras!
Olá...
Adorei seu blog, estou seguindo.
Se puder segue o meu ? http://devaneiodeumaadolescente.blogspot.com/
Postar um comentário