Terça-feira, Agosto 09, 2011
O ponto vermelho da TV em stand by clareia minha face como o sol da manhã e, no entanto, a madrugada vai bem avançada, ao ponto de eu não saber se é tarde ou cedo. O mundo das minhas memórias me avassalam em rodopios de épocas vagas, lembranças de tempos inúteis e de pessoas mortas no meu ideário. Um cigarro me ajuda mais do que todas as religiões; só quem fuma sabe. Abro a janela e vejo o clarão do vilarejo próximo e os faróis dos carros que correm para não sei onde, o pensamento não se fixa. Tudo me é um mosaico de estrelas que hoje, e só por hoje me saltam aos olhos. Engoli calmantes suficientes para acalmar o Oriente Médio e eles me são anódinos. A cabeça dá voltas em torno dela mesma. A TV talvez me desse um filme erótico, o prazer solitário da masturbação; talvez me desse um filme de tipos e violência gratuita e impune para saciar nossa cede cotidiana de sangue. Mas não, nada disso é real, e única realidade possível é o vilarejo que vejo a poucos quilômetros da minha janela. Tiro a camisa num gesto masculino e recebo a brisa de uma noite típica de primavera, a angústia me tirou da cama e escorre pelo braço esquerdo e deságua na mão que remete tudo a esse papel branco, por tanto a dizer, por não ter nada a dizer, talvez uma tentação de me confessar, eu: o mais ateu dos ateus em confissões, que pena pela lástima que sobrou de mim... Deixo a mão livre seguir seu curso sem a incomodar com racionalismos baratos, aquilo que resta de precioso em mim é instinto, que não me abandona...
O tempo é sujeito maior de tudo e tudo mais é o seu desenrolar, eu mato o tempo e me suicido aos poucos, sangro por dentro ao ponto de sentir a umidade linfática ensopar minha alma. O ponto vermelho da TV em stand by é uma condenação, uma cruz, uma pedra que carrego e sofro diante minha janela gradeada, outras luzes aparecem no horizonte, mas nada será como antes, outras penas se desenrolam ao meu lado, pesadas, de décadas e eu pouco me importo... Verdade, sou egoísta, por hoje e só por hoje eu só quero saber de mim com um desprezo deliberado pelo meu próximo, que francamente não vejo como irmão, são pedaços de carne com coração. Amanhã eu me debruçarei sobre todos os destinos, mas hoje me permita, a curta eternidade de uma vida, de me ocupar de meus mini-dramas, que são mais importantes que todo o mundo construído e concebido. A velocidade do pensamento é intocável, frases em Francês se misturam a pedaços do meu velho português, penso confuso, não concluo e imóvel diante do vilarejo sou toda ação possível ao ser humano, em estado de pura inércia, procuro aquela frase que dirá tudo e encontro um carrefeur de questões. Alguém bateu na porta, será do meu quarto ou da janela da minha alma! Não vou atender, não estou pra ninguém, não sou pra ninguém, deixem-me em paz vozes do passado, eu só quero a calma fria e o isolamento do mais hermético dos alquimistas. Consacrem-me toda a solidão que vós não sois capazes de suportar. Dêem-me, descarreguem o silêncio de todas as solidões no meu quintal, é dela que preciso. Vós inventeis vidas, finjam uma felicidade, briguem com o tempo e eu herdo vossas solidões, que isso é meu destino e não me dói, ser só é acompanhar-se de si mesmo e não há multidão maior que meu interior, que conhece cada mal que existe nos corações. Homem novo de alma velha, corpo descansado e espírito fustigado, vão embora porque eu sou dividido entre o vilarejo em face e o ponto vermelho d TV em stand by. De um lado todo mundo, de outro uma fina luz constante, aguda e perene como essa ardência d´alma que nunca me deixará!
05/02/201


3 comentários:
A alma tem uma pátria e ela se chama língua...
Estava sentindo falta disso aqui, fico feliz que tenha voltado.
\0/ lemão lindão voltou!!!!
\0/ Lemão lindão voltou!!!!
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