Domingo, Outubro 02, 2011
Texto escrito no feminino, depois de uma certa conversa em que ela não soube exatamente o que me dizer e eu tentei traduzir”
Quando ele sai meu corpo gela e a sudorese da distonia me trai, encharcando mãos e pés, fico assim: molhada de temor de que ele vá atravessar oceanos perigosos sem saber voltar. E me afobo, asfixiada do medo que ele esqueça que só o meu amor lhe pode fazer bem; porque eu, como mulher, assim decretei. Tenho pavor tactual de pensar em nunca mais tocá-lo, como tenho ira colérica de matar, sem compaixão, todas as mãos que já lhe tocaram. Nesses momentos noto que preciso bater em toda psicanalista diazepanada, que de fale de equilíbrio emocional. Aí, neste exato momento, grito caralho em alto e bom tom. Dói doído só de pensar no seu jeito calado, no seu sorriso inteligente, no seu modo calmo de contar suas aventuras a outras mulheres. Eu me retenho para não sair a sua procura, mesmo humilhada e sub-julgada. Penso vinganças horrendas, desde afastá-lo do seu filho até me deitar com o primeiro que aparecer. E me suspendo porque nisso de deitar minhas pernas tremem, meu corpo amolece e uma série de arrepios me toma a pele só de pensar no seu jeito safado, ordinário, indecente, depravado de deitar. Ele me faz uma viciada sexual!
Quando ele sai, encho os pulmões de ar, envergo a armadura da dignidade para matar esse monstro de ego, que me devora e me faz a pior das loucas. Fico pronta para estrangular esse sistema perverso de humilhação indireta, de dependência camuflada, de cativeiro aberto e escravidão voluntária. E me reforço porque ele faz, e sabe fazer de propósito, seu sistema de vida e morte sem ser claro, numa fumaça de palavras dúbias e gestos metafóricos. O meu bandido que me invade, mas já com a fuga preparada. E nada do que faz é direto, me transformando numa neurótica muda, já que seu sistema ambíguo de me fazer mal não permite contra-argumentos; a não ser que eu arrisque passar pela perseguida, vendo fantasmas. Como ele é cruel e deliberado, com aquele sorriso de demônio traquino. E me preparo contra todos os subjuntivos possíveis, contra suas dubiedades de intenções, contra sua metafísica de me perder; dou nome a cada a cada boi, numa organização mental meticulosa, jogo o jogo dele! E me reforço, bebo nas grandes mulheres, encarno Simone de Beauvoir e cantarolo Roberto Carlos: “preciso acabar logo com isso, preciso lembrar que eu existo...”. De oprimida à rebelde, libertária e vitoriosa. Ele me torna uma mártir de mim!
É agora um enigma decifrado, ima xarada óbvia, um jogo calculista manjado. Pronta, não para acabar, mas para decaptar o algoz que não teve a misericórdia de me finalizar e me manteve viva o suficiente para sentir o sofrimento; carrasco que optou pelo meu estado de semi-coma sentimental; quando minha emoção padecia de um câncer letal ele me negava a morfina, como um sádico. Foi me assassinando assim: veja mas não queira, queira mas não toque, toque mas não prove, prove mas não repita, até este extremo lastimável. E me recapitulo, ponto por ponto, palavra por palavra, reensaio mil vezes todas as caras e bocas, rememorizo tudo que lhe vai ferir, não pode faltar nada e afio a espada que vai desferir o golpe final, e erguer às alturas meu grito de independência.
Quando ele chega é dos diabos, tudo passa, meu coração bate compassado, nada disso aconteceu, ele me beija com paixão e eu sou feliz!
Edu França 11/12/2009


1 comentários:
Como gosto do que escreve, e de como escreve.
Me vi em alguns trechos desse texto, vc é demais!
Bjim
Postar um comentário