Quarta-feira, Novembro 30, 2011
Eu me acordei com o barulho de uma feira a céu aberto, aquele zum-zum-zum de gritos soltos, diálogos atropelados, conversas cruzadas, das quais eu não pesquei uma palavra, umazinha por misericórdia. Eu não entendia o idioma! Me levantei trôpego e me debrucei, estático, à janela da feira, estava num prédio de dez andares e por baixo havia senhoras de turbantes negros, senhores de sarongues paquistaneses e os árabes com suas tocas e eu só queria saber o que eu estava fazendo ali. Virei às costas e o quarto de casal não era o meu, ao contrário: móveis escuros e antigos não me encantavam, me soavam como parte de um antiquário; e eu amava a modernidade, mas algo me fez velho: uma fotografia de casamento, comigo muito moço e uma senhora bela, de aparência magrebe, lindíssima por sinal. Mas eu não sabia o que estava fazendo, ao menos eu sabia o que não estava fazendo: eu nunca casei com aquela mulher! Voltei à janela em busca de Recife, mas ao longe passava um trem azul, branco e vermelho e a estação tinha uma placa azul com o nome em branco: “Sevran”, logo abaixo assinalava a direção de Paris. Que danado tava eu fazendo no quarto de um estranho, casado com a mulher dos outros, no subúrbio de uma cidade que não era minha?
Tudo que queria, mais que compreender o absurdo do outro, era achar meu passaporte brasileiro, o qual dizia meu nome, constava minha nacionalidade e me situaria a minha inquietação de não ser eu; revirei as gavetas em total impunidade, botei abaixo o guarda-roupa e me dei com uma identidade um tanto azulada com minha foto estampada e um nome árabe que nem de longe se parecia com o meu, lá estava Karim Abule-Hlla, nacionalizado francês em setembro de 2008, nascido na Tunísia. Ah não! Só podia ser falso, caso de polícia, eu nem sei, ao certo, onde fica a Tunísia e o meu verdadeiro nome é... é... é... Maldito branco. Esqueci meu nome, não é possível esquecer seu próprio nome. Mas eu lembro de Recife, da Av. Guararapes, da Dantas Barreto, da favela do Detran, do Varadouro, da Sé, do V8, da Ribeira, do Mercado Eufrásio Barbosa, Av Norte, do Vasco da Gama, da Igreja de Piedade, do calçadão de Boa Viagem, do Mercado de São José, do sarapatel em Camaragibe, da praia de Itapuama, de Pedra do Xareu... oxe, eu me lembro de Geraldo Freire e do Bandeira 2, é claro que qualquer policial saberá que eu não sou daqui. Entretanto, como coisa estranha, como sentimento estrangeiro, eu me lembro com perfeição e ricamente detalhado da Boulevard Saint Germain. É, de tomar Richard à Brasserie Liip e ouvir a esquerda do mundo, dos “vins rosés” incríveis do “Le Deux Magots”, do de Flore, me lembro também, não sei como, do quatier latin, e de um belo restaurante defronte è “La Place Saint-Michel”, dos pequenos bistrôs colados à ateliers de pinturas de Monmartre, do Jazz, do Rock e do sexo à “rue de Saint-Dinis, à Chattlet, Guines Taverne, dos inferninhos no Pigalle, da boulangerie Voltaire, no 11ème, onde comia exageradamente o “Religieuse” de café, de cafés duplos. Quando queria beber bem era em Bastille, no Havanita, onde me perdia entre mojitos, piña colada e cervejas irlandesas... sempre existirá o Club Cuba Libre, onde bebi o que há de melhor em margaritas. Almoçar era no Budha, belas saladas de Salmão defumado e tudo isto estava em mim sem ser eu.
Como memória implantada, atravessei a porta e uma menina linda me pediu: “Papa, est-que-ce tu peux m´aider à étudier?”. Eu entendia francês sem saber como e de quem era aquela menina que me chamava de pai. Será que seu pai não ficaria ofendido se sua filha filha chamasse um estranho de pai? Eu poderia esquecer meu nome, mas uma criança não confundi seu pai! “Oui, je peux t´aider, assieds là, sil-tu-plaît ma chéri”. Eu falava francês. Como? Onde aprendi isso? Só me vinha uma tontura e tudo girava ao meu redor. Eu já me distraia explicando à garotinha a formação do passé composé do verbo être. Nada mais que colocar o verbo no passado inifinitivo precedido do verbo “avoir”, e lá ia eu dizendo e ela repetindo: j´ai été, tu as été, Il a été, nous avons été, ils ont été. Eu sabia de cor. Minha suposta filha deveria ter 8 anos, não mais. Fiquei muito acanhado de perguntar, pega muito mal pra um pai esquecer a idade de um filho. Mal mesmo era não lembrar do filho! Eu tava puto com a irresponsabilidade dos responsáveis daquela criança, largá-la aos cuidados de um estrangeiro desconhecido. Então entrou pela porta aquela que seria sua mãe, presumi pelo grito da menina; logo eu seria o marido, no máximo em ex-companheiro, mas ela me beijou com tanto calor que, então, descobri que era marido. Não só pelo beijo mas pela forma casual como largou minha boca no ar e se foi pra cozinha. Ninguém beija uma estranhoe vai guardar legumes como se nada fosse. Achei que fosse hora de um faca-à-face, mas na hora de lhe chamar eu não sabia seu nome e fiquei mudo, com a língua saboreando o que sobrou do beijo, com a esperança desesperada de que seu nome viesse com seu gosto. Ela havia bebido um café amargo, mas havia também o gosto recente de licor de amêndoas amargas – sim, do gosto eu lembrava bem. Por isso joguei o verde, disse o que sentia do seu beijo, minha boca falava francês, embora – continuo afirmando – não sei falar francês. Ela riu e disse que meu paladar era meu tesouro e se um dia eu ficasse rico seria por conta da minha língua. Quer dizer que sou pobre e versado em sexo oral, aos pouco eu ia me achando, segundo os outros. Não era nada mal ser esposo dela, que mulher bonita! No meu Recife a chamariam de morena clara, bronzeada, mas ela era da cor do deserto, de coxas grossas, cintura fina, seios fartos, passava dos 30 e tinha uma pele cuidada à ouro, uma voz rouca e com um francês delicado que dava prazer de ouvir, pronunciava sílaba por sílaba. “Jordana”, a menina correu a mãe, que pronunciou na verdade “Jordaná”, coisas do francês que transformam todas as palavras em oxítonas; eu estava quieto, com medo de ser descoberto porque começava a me achar bem vestido naquele terno, mulher bonita, menina inteligente, licor de amêndoas amargas e sexo oral. A menina relatou o que ensinei. Ensinei o que não sei! “Quem é a mulher mais linda do mundo?”, “Charllotte Hallal”, respondia a menina aos gostos da mãe e assim me ensianava o nome da minha esposa – que nunca foi. “Todos elogiaram o conto”, ela me disse. Que conto? “ O problema foi você trata a ´classe dominante como tiranos ridículos´, mas o editor fez o contrato de publicação sem retificar uma vírgula”. “E quem vai resolver isso?” “Ora, você, o escritor!”. Boa, eu era escritor e de esquerda anti-burguês, não tava mal. Agora eu só me perguntava como seria quando todos descobrissem que era um impostor recifense, lascado, sem eira nem beira e muito menos um escritor. “Vi um apartamento em Paris, isso tá virando uma cité”. Cité é favela, disso eu sei, conheço cité, pobreza e toda sorte de miséria. “9ème, rue de Saint-Claude...”, “Perto da ópera de Bastille!”, completei de avanço, como ato automático, como se o mapa de Paris estivesse implantado na minha cabeça. Alguém me comprou essa vida; não é um sacana, mas não é justo com essa criança amável, nem com essa mulher deliciosa que essa farsa continuasse. Eu não posso!
A primeira coisa a fazer era abrir o jogo, dar nome aos bois e evocar Recife como centro do mundo, muito respeito pela Tunísia, mas não sei onde fica. Meti a boca ao ataque, disse que era recifense, assim como ela era parisiense. Ela tomava uma ducha completamente nua e sem o pudor de um estranho, repetiu “RECIFONSÍ” , como se pronuncia no francês e pensou que fosse um metier, um estilo literário ou mesmo uma doença tropical. “Não, é uma Nação!”. Embalou-se de gargalhada, quanto mais eu explicava mais ela ria, eu me irritei com a cena patética, fechei a cara, mas não desviei o olhar daquela bela fêmea nua. “Não precisa inventar estórias pra não irmos a Tunísia esse ano. Francamente, também já estou cheia de lá. Também não podemos ir ao Irã...”; “O que diabos vamos fazer no Irã?”, “Respeite meus pais, acho que fizeram uma má escolha, no momento errado em voltar pro Irã, mas eles me faltam muito...”, “Não falei por eles, falei por causa do regime de governo...”. Eu tava bem casado, até mentiras de dissimulação já tinha prontas; eu era casado com uma iraniana, já tinha ido a Tunísia diversas vezes em férias, o que significava que eu era bem eu! Recife lhe soou tão estranho quanto uma bicicleta para um peixe, ela reagiu como se nunca tivera ouvido falar de Recife, mas eu nunca deixaria de contar a minha esposa minhas aventuras tropicais, como andar pelo carnaval de Olinda, tomar aguardente puro em Vitória, comer acarajé apimentado na Dantas Barreto, comer feijão com charque na beira do canal da encruzilhada ou tomar batida de coco no bloco “eu acho é pouco”. Isso não se esconde nem de Jesus, quanto mais de uma mulher que mais em mais me despertava desejo! Alisei seus cabelos secos e cheirei seu pescoço perfumado, ela fechou os olhos e sorriu de leve, como se o tempo parasse pra sentir o carinho. Jordana entrou pelo banheiro, falando pelos cotovelos, peguei-a no braço e ela me melecou de batom. Eu era aquilo que me tornara. Talvez Recife e minha vida fossem apenas umas estórias inventadas, estórias que apenas esqueci de passar pro papel. A menina desabalou do banheiro como um foguete, e como toda criança, ela só queria o que se passava. Charllotte abraçou-me nua debaixo do roupão, eu senti o prazer supremo e sublime de sentir seu corpo feminino nu, sem nada interrompendo o correr das minhas mãos indecentes sobre sua pele macia. Me beijava com paixão e, não sei como, eu a amava mesmo que tenha descoberto seu nome a coisa de minutos atrás. Fizemos amor com uma intimidade que só os anos dão a um casal, o toque certo, na hora certa e uma infinidade de conjugações de fazer amor; pontualmente alinhado, nossos relógios de amar tinham sincronia. Preferia morrer a me desmascarar. Empurrou-me pra ducha como quem cuida de uma criança, dizendo estávamos atrasados. Eu já acostumava a não saber de nada, tomei meu banho às pressas, atrasado Deus sabe pra que!
Ela danou-se com Jordana que pintou o 7 na sala, eu fui ao guarda-roupa e me agradei do que vi, o seu dono tinha o mesmo gosto que eu; ela regia o tempo como uma maestrina, mandou me despachar, escolhi uma camisa de botões, sem bolso. Havia muitas, finalmente alguém, além de mim, descobriu a inutilidade do bolso numa camisa de botões, só causa desarmonia e desequilíbrio estético. Qual serenidade podia eu aspirar? Vesti-me elegante, mas informal, como gosto! Ela arranjou a gola da camisa e me elogiou os sapatos. Havia muitos perfumes, segundo ela, escolhi seu preferido. Fiquei na sala como um imbecil, esperando ordens e com vergonha de perguntar onde iríamos, deu-me uma pasta de couro, sem alças, boas pra guardar textos e abriu a porta; claro que eu e Jordana obedecemos como cães. Já não havia feira, nem muita gente, alguns jovens negros faziam um pequeno tráfico de cannabis, ela abriu a porta de um carro. Duvido que minha esposa fosse uma ladra e me convenci de que era seu, quando ela me fuzilou: “Você já pode comprar um carro melhor!”; eu nunca tive carro! Jordana atacou o cinto com destreza, prova de que tinha hábito. “Achei”, gritou Charllotte com um brinco caído no assoalho, de fato o carro era bem conhecido da família. Caladinho, caladinho eu até parecia parte de tudo; ela meteu-se na estrada e eu não me recordava das ruas de Paris, ia vendo como novidade, se fosse em Recife, por exemplo, eu saberia ir da zona Sul à zona Norte num piscar de olhos. Mas em Paris não era mais que um turista, até que caiu da minha boca “entra em Bagnolet e vai por Rommainville até Lilas, assim evita o trânsito na porta de Montroeil”. Sei lá como sabia disso, só sei que funcionou, um atalho e tanto, mas pra onde? Em poucos minutos estávamos numa grande Boulevard e o impulso foi o mesmo: “Vai até Nation e vira na Boulevard Voltaire até Republique e guarda o carro no estacionamento do restaurante Leon Bruxelles”! Funcionou outra vez. Descemos do carro e eu fiquei parado, “É normal, mas depois passa!”. O que é que passa? Agarrou no meu braço, eu segurei no braço de Jordana e fomos lá, onde só ela o sabia. La place de Republique não me era estranha, olhei-a como turista, eu era um turista da minha nova vida. Contornamos meia praça e entramos num hotel luxuoso e requintado, onde uma placa indicava a direção do centro de convenções; então íamos a uma palestra? Mas de quê? Espero bem que não seja de venda de colchões ortopédicos. Era uma sala confortável, de 100 lugares no máximo, quase todos ocupados, nos dirigimos à primeira fila onde só haviam 2 lugares vagos, evidente que o posto de vigilante era meu. Também estava muito nervoso pra sentar, queria que tudo começasse o quanto antes; Charllotte me puxou pela camisa e de deu um beijo delicioso, com sabor café, me desejou boa sorte e me soltou. Sensação de barco à deriva! Uma moça gentil tocou no meu braço me convidando a subir no palco, parece que o palhaço seria eu. Me deixei levar, trêmulo de medo, logo veio um técnico e colocou o microfone a minha altura, eu pedi um pouco de grappa com café; no tempo de providenciar o técnico tomou-me a pasta e a abriu, apoiada no púlpito. Fiquei ali parado sem saber se sabia ler em francês; chegaram a grappa gelada e o café expresso, degustei os dois e o amargo me pareceu agradável. Ganhei coragem e de súbito sabia que a hora do meu desmascaramento era agora! Puxei a primeira folha e comecei a lê-la em boa entonação, com pausas dramáticas e entonações teatrais, o público começava a se deixar levar pela história, uma senhora ria, e é de rir mesmo. Eu entendia o que lia e me lembrava de Recife, lia como se todos fossem capazes de me levar pra casa, como se aquela centena de pessoas fosse potente o suficiente pra me explicar, sobretudo, explicar a minha amada Charllotte que não sou árabe, muito menos tunisiano, que meu berço é a favela do Detran e que sou bicho tropical, que nasceu da mistura de preto, índio e português. Mas que ser de lá não me impede de amar de cá, onde uma família amorosa me acolhe mesmo que não me lembre dela, e que o Irã e o Brasil nem são tão longe assim; só queria dizer que te amo mesmo sem saber quem és, nem quem sou. O público que ria, se comoveu, me aplaudiu de pé e mesmo assim continuo amando perdido, entre Recife e qualquer lugar!
Edu França
08/06/10



8 comentários:
Comecei ler...esta interessante, mais preciso ir trabalhar...vou voltar a ler e voltar a comenta ;)
e foda amar alguem de outro pais!
Muito bem desenvolvido :D
belissimo texto
mas aja coragem pra ler kkk
http://www.provasetrapacas.blogspot.com/
muito interessante o texto...gostei,,
Nossa, muito bom!
Coitado dessa cara UDSHUDSAH
http://iampurplepineapple.blogspot.com/
cara, vc tem muito talento!
manda bala!
abs.
Alguém me belisca que eu to sonhando, não acredito ,que andando de blog em blog, encontrei um cara que escreva dessa forma, algo desse tipo só vi nos livros que eram proibidos para as crianças das séries iniciais, os quais eu amava ler escondida da bibliotecária, na minha cadeirinha atras do armário, por que isso sim é leitura de verdade, tem alma, tem cheiro e sabor, ainda estou pasma Edu, eu leria várias e várias vezes, minha vontade é mostrar para todos os meus amigos, familiares, conhecidos, desconhecidos, inimigos, enfim, aonde eu posso encontrar o seu livro?
Eu simplesmente amei, ia te convidar para visitar meu blog, mas esquece, me deu até vergonha rsrsrs. Continue escrevendo assim Edu, isso é simplesmente inexplicável.
Abraço forte.
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